Desenvolvimento de um modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem

A ação profissional de enfermagem em cuidados de transição assegura a continuidade entre hospital e domicílio, integrando educação e apoio ao autocuidado para transições seguras  (Hirschman et al., 2015). No cliente submetido a cirurgia eletiva, estas ações estendem-se do pré-operatório até após a alta, visando apoiar a recuperação e prevenir complicações (AORN, 2021). Na transição para o domicílio, a fragmentação dos cuidados potencia complicações e fragiliza a autogestão sintomática (Bonilla et al., 2025). A literatura sobre modelos de enfermagem perioperatórios concentra-se predominantemente na fase pré-operatória, não integrando de forma consistente o follow-up pós-operatório autónomo (Mendes & Ferrito, 2021; Gonçalves et al., 2024). Após a alta, a adesão e o controlo de sintomas são prejudicados pelo menor tempo de internamento, pelo stresse e por uma educação para a alta realizada em momentos desfavoráveis (Alsolami, 2025). Muitos clientes regressam a casa com lacunas de conhecimento sobre o autocuidado e a gestão da recuperação no domicílio, o que pode comprometer a capacidade de autocuidado e a identificação precoce de sinais de alerta (Kang et al., 2022). O autocuidado após alta hospitalar de um cliente submetido a cirurgia eletiva é um processo complexo que depende da qualidade da educação para a saúde e do envolvimento ativo do cliente (Groenen et al., 2025). As intervenções autónomas de enfermagem no follow-up pós-operatório permitem identificar necessidades e detetar precocemente complicações, sendo o acompanhamento telefónico associado a maior satisfação, melhor controlo da dor e dos sintomas e redução de complicações e readmissões, enquanto a utilização de tecnologias pode reforçar o papel ativo do cliente na gestão da sua saúde (Kang et al., 2022; Maqueda-Martínez et al., 2024; AORN, 2025).

A investigação centra-se nas necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado na transição para o domicílio após cirurgia eletiva. Perante a limitada sistematização da avaliação e acompanhamento no período pós-alta, propõe-se o desenvolvimento e avaliação de um modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem, orientado para integrar a tomada de decisão clínica de enfermagem, promover transições seguras e melhorar a qualidade dos cuidados.

O fenómeno assenta em três pilares teóricos que guiam a prática de enfermagem. A Teoria das Transições de Meleis refere que o percurso do cliente ao longo do continuum perioperatório é visto como um processo de transição (saúde/doença), onde o follow-up pós-operatório de enfermagem atua como uma Nursing Therapeutic que facilita novas competências e garante a maestria do cliente sobre a sua condição (Meleis et al., 2000). Baseando-se na Teoria do Défice de Autocuidado de Orem, o modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem responde aos requisitos de desvio de saúde através de um sistema de apoio-educação (Hartweg & Khalil, 2015). O Modelo Centrado no Doente Perioperatório da AORN integra o cliente, a sua rede de suporte e os cuidados ao longo de todo o perioperatório e recorre ao Perioperative Nursing Data Set, para codificar diagnósticos, intervenções e resultados, garantindo que o foco permanece sempre no cliente e na família (Wicklin & Ann, 2020).

O conhecimento, componente central da literacia em saúde, permite tomar decisões informadas na gestão da saúde. Contudo, a transmissão de informação não garante, por si só, a sua consolidação, sobretudo em pessoas com baixa literacia (Blöndal et al., 2022). A taxonomia NANDA-I inclui os diagnósticos “disposição para o conhecimento melhorado” e “disposição para a melhoria do autocuidado”, que valorizam o cliente como sujeito ativo e sustentam intervenções de enfermagem centradas na capacitação (Herdman et al., 2024). Assim, no pós-operatório o conhecimento é essencial para o autocuidado, permitindo ao cliente compreender e aplicar orientações determinantes para uma transição segura para o domicílio (Blöndal et al., 2022).

A literatura evidencia uma lacuna na operacionalização de modelos de follow-up pós-operatório que avaliem sistematicamente as necessidades de conhecimento e implementem intervenções após a alta, o que pode comprometer a continuidade dos cuidados e as transições seguras. Propõe-se, assim, desenvolver e validar um Modelo de Follow-up Pós-operatório de Enfermagem (MFPE), centrado nas necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado.

No cliente submetido a cirurgia eletiva, a transição para o domicílio acarreta riscos, dúvidas e dificuldades na gestão de sintomas, exigindo cuidados de enfermagem estruturados para garantir segurança e continuidade. O projeto visa desenvolver um modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem centrado na resposta às necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado de clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar. Estrutura-se em quatro estudos: uma scoping review para identificar modelos, estratégias e componentes de follow-up pós-operatório orientados para as necessidades de conhecimento e capacitação do autocuidado; um focus group com enfermeiros perioperatórios, que visa conhecer os dados que suportam a tomada de decisão clínica de enfermagem no follow-up pós-operatório; entrevistas semiestruturadas a clientes submetidos a cirurgia eletiva, visando explorar as suas necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado após alta hospitalar; e um metodológico com recurso a Delphi para desenvolver e validar o modelo. Perspetiva-se que o modelo identifique respostas humanas na transição, apoie a decisão clínica autónoma e oriente intervenções de apoio-educação, monitorizando resultados centrados no cliente. Pretende-se capacitar os clientes, otimizar o controlo sintomático, mitigar riscos e consolidar cuidados seguros, eficientes e baseados em evidência.

Como objetivo geral determinou-se o seguinte: Desenvolver um modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem centrado na resposta às necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado de clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar.

Como objetivos específicos (OE) pretende-se:

OE1 - Mapear os modelos, estratégias e componentes de follow-up pós-operatório de enfermagem dirigidos às necessidades de conhecimento e à capacitação do autocuidado em clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar.

OE2 - Conhecer a perspetiva dos enfermeiros sobre os dados que suportam a tomada de decisão clínica de enfermagem no follow-up pós-operatório de clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar.

OE3 - Conhecer a perceção dos clientes submetidos a cirurgia eletiva sobre as suas necessidades de conhecimento para a capacitação do autocuidado no pós-operatório após a alta hospitalar.

OE4 - Desenvolver e validar a estrutura de um modelo de follow-up pós-operatório de enfermagem centrado na avaliação e intervenção das necessidades de conhecimento na capacitação do autocuidado de clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar.

A inovação desta investigação reside no desenvolvimento de um modelo estruturado de follow-up pós-operatório de enfermagem, centrado nas necessidades de conhecimento e na capacitação para o autocuidado de clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar. A construção do MFPE assenta na articulação entre a evidência científica, a perspetiva dos enfermeiros sobre a tomada de decisão clínica e a experiência dos clientes, sendo posteriormente submetido a validação por peritos. Esta abordagem pretende reforçar a componente autónoma e específica da ação profissional do enfermeiro, contribuindo para a sistematização da prática e para a consolidação do conhecimento disciplinar de Enfermagem.

Para o cidadão, espera-se que o MFPE contribua para o aumento dos conhecimentos necessários à gestão do período pós-operatório, para uma maior capacidade de autocuidado e para um melhor controlo de sintomas, podendo favorecer a identificação atempada de complicações e a redução de eventos adversos. Para as organizações e a sociedade, prevê-se que a sistematização do follow-up pós-operatório contribua para a continuidade, qualidade e segurança dos cuidados, com potencial impacto na utilização dos recursos de saúde, nomeadamente através da redução de reinternamentos e de episódios de urgência relacionados com o evento cirúrgico a que os clientes foram submetidos.

  • Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E)
  • Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC)
  • Santa Casa Misericórdia da Mealhada (SCMM)
  • Alsolami, F. J. (2025). Nurse-Led Preoperative Education for Elective Surgery: Patient Satisfaction and Recall in a Mixed-Method Study. Healthcare, 13(22), 2951. https://doi.org/10.3390/healthcare13222951

    AORN. (2021). Scope and Standards of Practice. https://www.aorn.org/guidelines-resources/clinical-resources/standards-of-practice

    AORN. (2025). AORN guidelines for perioperative practice (2025 edition). Association of periOperative Registered Nurses.

    Bardin, L. (2016). Análise de Conteúdo. Edições 70.

    Blöndal, K., Sveinsdóttir, H., & Ingadottir, B. (2022). Patients’ expectations and experiences of provided surgery‐related patient education: A descriptive longitudinal study. Nursing Open, 9(5), 2495–2505. https://doi.org/10.1002/nop2.1270

    Bonilla, M. A., Sarmiento Bonilla, C. I., Rojas Herrera, M. F. D., Herrera Palacios, F. J. N., Ramírez Pineda, M. D., & Vega Solano, M. (2025). The Impact of Surgical Continuity of Care on Postoperative Outcomes and Hospital Readmissions: A Review. Cureus, 17(8), e90207. https://doi.org/10.7759/cureus.90207

    Gonçalves, M., Pereira, A., & Machado, N. (2024). Perceção dos enfermeiros sobre a preparação do cliente cirúrgico: Contributos para estruturar uma consulta pré-operatória. Millenium - Journal of Education, Technologies, and Health, (25), e36971–e36971. https://doi.org/10.29352/mill0225.36971

    Groenen, H., Bontekoning, N., Van Dieren, S., Orsini, R. G., Boermeester, M. A., Tobiano, G., & Eskes, A. M. (2025). Patients’ Ability to Self-Manage Their Surgical Wound to Prevent Wound Complications: A Cross-Sectional Study. Journal of Advanced Nursing, 81(7), 4208–4215. https://doi.org/10.1111/jan.16644

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    Herdman, T., Kamitsuru, S., & Lopes, C. (2024). Diagnósticos de enfermagem da NANDA-I: Definições e classificação 2024–2026 (13a). Artmed.

    Hirschman, K. B., Shaid, E., McCauley, K., Pauly, M. V., & Naylor, M. D. (2015). Continuity of Care: The Transitional Care Model. Online Journal of Issues in Nursing, 20(3), 1.

    Kang, E., Chaboyer, W., Tobiano, G., & Gillespie, B. (2022). Evaluating the feasibility of a web-based discharge education programme to improve general surgical patients’ postdischarge recovery: A pilot randomised controlled trial. BMJ Open, 12(2), e054038. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2021-054038

    Maqueda-Martínez, M. de los Á., Ferrer-Márquez, M., García-Redondo, M., Rubio-Gil, F., Reina-Duarte, Á., Granero-Molina, J., Correa-Casado, M., & Chica-Pérez, A. (2024). Effectiveness of a Nurse-Led Telecare Programme in the Postoperative Follow-Up of Bariatric Surgery Patients: A Quasi-Experimental Study. Healthcare, 12(23), 2448. https://doi.org/10.3390/healthcare12232448

    Meleis, A. I., Sawyer, L. M., Im, E.-O., Hilfinger Messias, D. K., & Et., A. (2000). Experiencing Transitions: An Emerging Middle-Range Theory. Advances in Nursing Science. https://doi.org/10.1097/00012272-200009000-00006

    Mendes, D. I. A., & Ferrito, C. R. C. (2021). Consulta de enfermagem pré-operatória: Implementação e avaliação. Revista de Enfermagem Referência, 1–8. https://doi.org/10.12707/RV20216

    Peters, M. D. J., Godfrey, C., McInerney, P., Munn, Z., Tricco, A. C., & Khalil, H. (2020). Chapter 11: Scoping reviews. Em E. Aromataris & Z. Munn (Eds.). Em JBI Manual for Evidence Synthesis (1.a ed., pp. 406–451). JBI. https://doi.org/https://doi.org/10.46658/JBIMES-20-12

    Scarparo, A. F., Laus, A. M., Gabriel, S., & Chaves, L. D. P. (2012). Reflexões sobre o uso da Técnica Delphi em pesquisas na enfermagem. Rev Rene, 13(1), 242–251.

    Streubert, H., & Carpenter, D. (2013). Investigação qualitativa em enfermagem: Avançando o imperativo humanista (5a ed.). Lusodidacta.

    Tricco, A., Lillie, E., Zarin, W., K.  O’Brien, K., Colquhoun, H., Levac, D., Moher, D., D.J.  Peters, M., Horsley, T., Weeks, L., Hempel, S., A.  Akl, E., Chang, C., McGowan, J., Stewart, L., Hartling, L., Aldcroft, A., G.  Wilson, M., Garritty, C., … E.  Straus, S. (2018). PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR): Checklist and Explanation. Annals of Internal Medicine. (world). https://doi.org/10.7326/M18-0850

    Wicklin, V., & Ann, S. (2020). The Perioperative Patient Focused Model: A literature review. Perioperative Care and Operating Room Management. https://doi.org/10.1016/j.pcorm.2019.100083

    Informação do projeto

    • Data de Início

      17/07/2026

    • Data de conclusão

      31/07/2029

    • Projeto Estruturante

      A pessoa em situaçâo perioperatoria

    • Linha Temática

      Self-care and health-disease

    • Target population
      • Clientes submetidos a cirurgia eletiva após a alta hospitalar
    • Palavras-chave
      • Patient Discharge
      • Self Care
      • Transitional Care
      • Postoperative Care
      • Perioperative Nursing
    • Áreas prioritárias
      • Educação para a Saúde e Literacia
      • Segurança do doente e efetividade dos cuidados
      • Transições de saúde e autocuidado
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
      • Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
    • Equipa de Projeto
      • Leonardo Filipe Tomé Fernandes Breda IR
      • Marco António Rodrigues Gonçalves OR
      • Natália De Jesus Barbosa Machado OR