A pessoa em situação crítica exige cuidados de enfermagem altamente qualificados e contínuos, orientados para a manutenção das funções vitais, prevenção de complicações e resposta a situações de falência orgânica. No âmbito da Enfermagem Médico-Cirúrgica, incluem-se também os cuidados à pessoa em morte encefálica (ME) e à pessoa potencial dadora de órgãos (PPDO), cuja estabilidade deve ser preservada para garantir a viabilidade dos órgãos destinados a transplantação (Regulamento n.º 429/2018, 2018).
Os Serviços de Medicina Intensiva (SMI) constituem contextos de elevada complexidade, caracterizados pela utilização de tecnologia avançada, gravidade clínica e contacto frequente com situações de vida e morte, exigindo competências técnicas, relacionais e éticas dos enfermeiros (Magalhães et al., 2018). A ME corresponde a uma situação irreversível, caracterizada por coma profundo, ausência de respiração espontânea e perda dos reflexos do tronco cerebral, cujo diagnóstico pressupõe a exclusão de causas potencialmente reversíveis e a realização de provas específicas (OE, 1998; European Directorate for the Quality of Medicines & HealthCare, 2022; Transplant Procurement Management, 2014).
Após o diagnóstico de ME, a manutenção da estabilidade da PPDO assume particular relevância, uma vez que as alterações fisiopatológicas subsequentes podem comprometer rapidamente a perfusão tecidular e a viabilidade dos órgãos. As intervenções incluem estabilização hemodinâmica, controlo eletrolítico e metabólico, manutenção da temperatura corporal e otimização da oxigenação (Lemes e Bastos, 2007; Transplant Procurement Management, 2014; IPST, 2013). O enfermeiro assume um papel central na vigilância contínua e na implementação destas medidas, nomeadamente através da monitorização dos sinais vitais, balanço hídrico e diurese, vigilância da função renal, ventilação mecânica, controlo da glicemia e temperatura, utilização de fármacos vasoativos, prevenção da infeção, hidratação das córneas e prevenção de lesões por pressão (Lemes e Bastos, 2007).
Contudo, o cuidado à PPDO ultrapassa a dimensão técnico-científica, envolvendo importantes desafios humanos, emocionais, éticos e relacionais. Moraes et al. (2015) descrevem este cuidado e o acompanhamento da família como processos complexos e emocionalmente exigentes. Entre as principais dificuldades encontram-se a incompreensão da família relativamente à ME, a falta de preparação dos profissionais para situações de luto e perda inesperada e sentimentos de insegurança e impotência. A comunicação clara, a empatia e a humanização dos cuidados assumem, por isso, especial importância no apoio à família (Moraes et al., 2015).
Fonseca et al. (2021) identificaram como dificuldades a falta de capacitação profissional, a abordagem inadequada da família e a demora no processo de captação, enquanto o acolhimento familiar, a comunicação eficaz e a motivação da equipa constituem fatores facilitadores. Por sua vez, Magalhães et al. (2018) salientam a formação, a experiência clínica, a colaboração entre equipas, a existência de protocolos e o apoio das estruturas de doação como elementos facilitadores, contrastando com a sobrecarga física e emocional, a escassez de recursos e a insuficiente preparação para lidar com a ME.
Os significados atribuídos pelos enfermeiros ao cuidado da PPDO são diversos. Alguns profissionais manifestam distanciamento emocional perante a ME, enquanto outros atribuem sentido positivo ao cuidado pela possibilidade de contribuir para salvar ou melhorar a vida de outras pessoas através da transplantação. Esta experiência pode despertar sentimentos ambivalentes, como tristeza, angústia, frustração, insegurança e impotência, mas também satisfação e sentido de propósito (Lemes e Bastos, 2007; Moraes et al., 2015).
Assim, embora esteja reconhecida a importância da atuação do enfermeiro na manutenção da estabilidade da PPDO, permanece pouco explorado o significado atribuído pelos enfermeiros de cuidados intensivos a esta experiência de cuidar e aos fatores que influenciam a sua prática. A compreensão destas vivências poderá aprofundar o conhecimento em enfermagem e contribuir para a qualificação dos cuidados nesta área.
Enquadramento: A doação e transplantação de órgãos assume crescente relevância, sendo a manutenção da estabilidade fisiológica da pessoa potencial dadora de órgãos (PPDO) essencial para preservar a viabilidade dos órgãos. Este cuidado, realizado em contexto de cuidados intensivos, exige competências técnico-científicas e envolve desafios éticos, emocionais e relacionais, justificando a necessidade de compreender a experiência dos enfermeiros.
Objetivos: Compreender os significados atribuídos pelos enfermeiros de cuidados intensivos à manutenção da estabilidade da PPDO durante o cuidar. Pretende-se descrever as suas vivências, identificar significados atribuídos aos cuidados, explorar experiências, reconhecer fatores facilitadores e dificultadores e identificar padrões de significado.
Metodologia: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório, dirigido a enfermeiros de cuidados intensivos com experiência no cuidado à PPDO. Será utilizada amostragem não probabilística por bola de neve, até à saturação dos dados. A recolha incluirá caracterização sociodemográfica/profissional e entrevista semiestruturada, com gravação áudio mediante consentimento.
Resultados esperados: Espera-se aprofundar a compreensão das experiências dos enfermeiros, identificar necessidades e oportunidades de melhoria e contribuir para estratégias formativas e organizacionais que reforcem a qualidade e segurança dos cuidados prestados à PPDO.
Objetivo principal: Compreender os significados atribuídos pelos enfermeiros de cuidados intensivos à manutenção da estabilidade da pessoa potencial dadora de órgãos, durante a experiência do cuidar.
Objetivos específicos:
Descrever como os enfermeiros vivenciam a manutenção da estabilidade da pessoa potencial dadora de órgãos;
Identificar os significados atribuídos aos cuidados de enfermagem na manutenção da estabilidade da pessoa potencial dadora de órgãos;
Identificar fatores facilitadores e dificultadores da prestação de cuidados à pessoa potencial dadora de órgãos;
Explorar as experiências dos enfermeiros na prestação de cuidados à pessoa potencial dadora de órgãos;
Identificar padrões de significado associados à experiência do cuidar da pessoa potencial dadora de órgãos.
A inovação centra-se na compreensão dos significados atribuídos pelos enfermeiros de cuidados intensivos ao cuidado da pessoa potencial dadora de órgãos, uma dimensão ainda pouco explorada. Os resultados poderão identificar necessidades formativas e constrangimentos organizacionais, apoiar a melhoria de protocolos e práticas clínicas e reforçar a qualidade e segurança dos cuidados, com potencial impacto na preservação da viabilidade dos órgãos e no processo de doação e transplantação.
European Directorate for the Quality of Medicines & HealthCare. (2022). Guide to the quality and safety of organs for transplantation (8th ed.). EDQM.
Fonseca, E. O. D., Fernandes, F. E. C. V., Lira, G. G., Marinho, C. L. A., Moura, K. D. O., & Melo, R. A. (2021). Percepção de enfermeiros sobre os cuidados aos potenciais doadores de órgãos. Enfermagem Brasil, 20(1), 68–81. https://doi.org/10.33233/eb.v20i1.4498
Instituto Português do Sangue e da Transplantação. (2013). Guia para a qualidade e segurança dos órgãos para transplantação (5.ª ed.).
Lemes, M. M. D. D., & Bastos, M. A. R. (2007). Os cuidados de manutenção dos potenciais doadores de órgãos: Estudo etnográfico sobre a vivência da equipe de enfermagem. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 15(5). https://doi.org/10.1590/S0104-11692007000500015
Magalhães, A. L. P., Erdmann, A. L., Sousa, F. G. M., Lanzoni, G. M. M., Silva, E. L., & Mello, A. L. S. F. (2018). Significados do cuidado de enfermagem ao paciente em morte encefálica potencial doador. Revista Gaúcha de Enfermagem, 39, e2017-0274. https://doi.org/10.1590/1983-1447.2018.2017-0274
Moraes, E. L., Neves, F. F., Santos, M. J., Merighi, M. A. B., & Massarollo, M. C. K. B. (2015). Experiências e expectativas de enfermeiros no cuidado ao doador de órgãos e à sua família. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 49(Esp. 2), 129–135. https://doi.org/10.1590/S0080-623420150000800018
Ordem dos Médicos. (1998). Guia de diagnóstico da morte cerebral. Acta Médica Portuguesa, 11(1), 91–95.
Regulamento n.º 429/2018, de 16 de julho. (2018). Diário da República, 2.ª série (135), 19359–19365.
Transplant Procurement Management. (2014). Transplant procurement management manual (2014 ed.). Donation and Transplantation Institute Foundation.
29/04/2026
31/07/2027
A pessoa em situação crítica
Self-care and health-disease