As doenças vasculares crónicas, onde se incluem a doença arterial periférica, a insuficiência venosa crónica e as amputações de etiologia vascular, representam um dos maiores desafios de saúde pública a nível global. A Organização Mundial de Saúde e a American Heart Association têm considero que estas patologias configuram uma epidemia crescente que impacta severamente a autonomia dos doentes e a sustentabilidade dos sistemas de saúde (Paul et al., 2025; Takahashi et al., 2022). Em Portugal, estas condições são responsáveis por quase um terço da mortalidade total e por uma elevada proporção de dependência funcional e readmissões hospitalares (Sousa et al., 2023).
O período pós-alta hospitalar é particularmente crítico, sendo frequentemente caracterizado por uma dificuldade na coordenação entre os cuidados hospitalares e a comunidade. Doentes submetidos a intervenções vasculares ou amputações enfrentam desafios multidimensionais que incluem a gestão de feridas complexas, o controlo da dor, a imobilidade e a adaptação funcional (Santos & Sousa, 2022). Esta lacuna assistencial sublinha a necessidade urgente de modelos de cuidados integrados que garantam a continuidade e a gestão proativa das condições crónicas.
Neste contexto, a metodologia de gestão de caso surge como uma abordagem estruturada e baseada em evidências. Através de um processo colaborativo de avaliação, planeamento e coordenação, o gestor de caso torna-se o ponto de contacto principal, coordenando recursos multidisciplinares e monitorizando o progresso clínico e psicossocial (Castro et al., 2016; Mohan et al., 2022). A integração de tecnologias de saúde digitais potencia este modelo através de consultas híbridas, que combinam o acompanhamento presencial com a monitorização remota (Keesara et al., 2020; Kilfoy et al., 2025). Intervenções de telessaúde têm demonstrado melhorar a adesão terapêutica e reduzir as taxas de hospitalização (Jackson et al., 2023; Mohan et al., 2022).
A monitorização remota, apoiada por wearables e aplicações móveis, permite o rastreio contínuo de indicadores fisiológicos, apoiando decisões clínicas personalizadas e prevenindo complicações (Leo et al., 2022). Adicionalmente, estes modelos híbridos têm demonstrado potencial para reduzir os gastos diretos em saúde em até 50% (German et al., 2024). No entanto, a investigação especificamente focada na doença vascular crónica e na capacitação do cuidador informal permanece limitada (Sousa & Santos, 2024). O cuidador desempenha um papel vital, mas reporta frequentemente sobrecarga e baixa confiança na gestão da doença (Fields et al., 2022; Pashaeypoor et al., 2025).
O projeto mVasc.4U ancora-se nos princípios do Chronic Care Model e do Transitional Care Model, promovendo interações produtivas entre utentes informados e equipas de saúde proativas. Ao integrar um sistema de apoio à decisão clínica, o modelo visa garantir o acompanhamento contínuo e a deteção precoce de deteriorações, assegurando uma resposta célere e eficiente às necessidades da díade utente-cuidador.
Enquadramento: A doença arterial obstrutiva periférica (DAOP) constitui um desafio de saúde pública, com descontinuidade de cuidados pós-alta. Modelos de gestão de caso digitalmente apoiados podem melhorar a adesão e capacitar a díade utente–cuidador, mas a evidência em coortes revascularizadas é escassa.
Objetivos: Conceber e avaliar a viabilidade de um modelo de consulta híbrida de gestão de caso em enfermagem para pessoas com DAOP revascularizadas no membro inferior e seus cuidadores informais, na ULS Coimbra.
Métodos: Estudo exploratório de métodos mistos, sequencial (18 meses). Fase 1 (n≈24): cocriação com enfermeiros, utentes e cuidadores via grupos focais e entrevistas. Fase 2 (n=20 díades): teste de usabilidade (SUS) e piloto quase-experimental de 8 semanas pós-alta, com contacto presencial, wearables, autorrelatos, educação personalizada, alertas e contactos telefónicos pelo enfermeiro gestor de caso. Avaliam-se sobrecarga (Zarit), autogestão (Therapeutic Self-care Scale), risco cardiovascular (SCORE-2) e indicadores de processo.
Resultados esperados: Modelo cocriado, aceitável e seguro, com potencial para melhorar a continuidade de cuidados e reduzir a sobrecarga do cuidador.
O projeto mVasc.4U visa conceber e avaliar a viabilidade de um modelo de consulta híbrido (presencial e remoto) no serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular da ULS Coimbra, baseado na metodologia de gestão de caso, integrando monitorização remota, educação digital e acompanhamento estruturado para promover o autocuidado, a adesão terapêutica e a capacitação do utente e cuidador informal.
Objetivos específicos:
Identificar necessidades, barreiras e prioridades relacionadas com a autogestão da DAOP e cocriar, com os utilizadores finais, o modelo híbrido de gestão de caso.
Testar a usabilidade do módulo de apoio à decisão clínica e sistema mVasc.4U dirigido às pessoas com DAOP e cuidadores informais para apoio à monitorização e autogestão.
Avaliar a viabilidade do modelo de consulta híbrida de gestão de caso.
O projeto mVasc.4U propõe um modelo híbrido de gestão de caso para doença vascular crónica, combinando consulta de enfermagem presencial com apps, wearables e apoio à decisão clínica. Pela sua natureza, alinha-se com os princípios da Ciência Cidadã, reforçando o impacto da investigação na sociedade.
Cocriação. Este estudo coloca doentes, cuidadores e profissionais de saúde no centro do desenho do modelo: necessidades, circuitos e indicadores são definidos com os cidadãos, valorizando o seu conhecimento experiencial como evidência estruturante.
Coprodução de dados e soluções. Os testes de usabilidade e o refinamento iterativo do módulo de apoio à decisão transformam doentes e cuidadores em coinvestigadores, que contribuem com dados de automonitorização e feedback qualitativo essenciais ao produto final.
Capacitação e literacia. Ao promover o autocuidado apoiado por tecnologia, o projeto reforça a literacia digital e em saúde, reduzindo assimetrias no acesso ao conhecimento — um eixo central da Ciência Cidadã.
Devolução à sociedade. A disseminação aberta e o Best-practice manual garantem que os resultados regressam ao SNS e à comunidade como recursos replicáveis, maximizando o impacto público do investimento em I&D.
Em síntese, o mVasc.4U é um exercício de Ciência Cidadã aplicada à saúde: a inovação tecnológica e metodológica ganha sentido porque é construída em parceria com quem dela vai beneficiar — cidadãos, famílias e comunidades.
Castro, E. M., Van Regenmortel, T., Vanhaecht, K., Sermeus, W., & Van Hecke, A. (2016). Patient empowerment, patient participation and patient-centeredness in hospital care: A concept analysis based on a literature review. Patient Education and Counseling, 99(12), 1923–1939. https://doi.org/10.1016/j.pec.2016.07.026
Fields, B., Makaroun, L., Rodriguez, K. L., Robinson, C., Forman, J., & Rosland, A. M. (2022). Caregiver role development in chronic disease: A qualitative study of informal caregiving for veterans with diabetes. Chronic Illness, 18(1), 193-205. https://doi.org/10.1177/1742395320949633
German, J., Yang, Q., Hatch, D., Lewinski, A., Bosworth, H. B., Kaufman, B. G., ... & Shaw, R. J. (2024). EXpanding Technology-Enabled, Nurse-Delivered Chronic Disease Care (EXTEND): protocol and baseline data for a randomized trial. Contemporary Clinical Trials, 146, 107673. https://doi.org/10.1016/j.cct.2024.107673
Jackson, T. N., Sreedhara, M., Bostic, M., Spafford, M., Popat, S., Lowe Beasley, K., Jordan, J., & Ahn, R. (2023). Telehealth Use to Address Cardiovascular Disease and Hypertension in the United States: A Systematic Review and Meta-Analysis, 2011-2021. Telemedicine Reports, 4(1), 67–86. https://doi.org/10.1089/tmr.2023.0011
Keesara, S., Jonas, A., & Schulman, K. (2020). Covid-19 and health care’s digital revolution. New England Journal of Medicine, 382(23), e82. https://doi.org/10.1056/NEJMp2005835
Kilfoy, A., Chu, C., Krisnagopal, A., Mcatee, E., Baek, S., Zworth, M., ... & Jibb, L. (2025). Nurse‐led remote digital support for adults with chronic conditions: A systematic synthesis without meta‐analysis. Journal of Clinical Nursing, 34(3), 715-736. https://doi.org/10.1111/jocn.17226
Leo, D. G., Buckley, B. J., Chowdhury, M., Harrison, S. L., Isanejad, M., Lip, G. Y., ... & TAILOR investigators. (2022). Interactive remote patient monitoring devices for managing chronic health conditions: systematic review and meta-analysis. Journal of Medical Internet Research, 24(11), e35508. https://doi.org/10.2196/35508
Mohan, B., Singh, B., Singh, K., Naik, N., Roy, A., Goyal, A., ... & Prabhakaran, D. (2022). Impact of a nurse-led teleconsultation strategy for cardiovascular disease management during COVID-19 pandemic in India: a pyramid model feasibility study. BMJ Open, 12(7), e056408. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2021-056408
Pashaeypoor, S., Yaghoobzadeh, A., Ong, F. S., Cheraghi, M., Khoshkesht, S., & Mardanian Dehkordi, L. (2025). Caregiving for patients with chronic diseases: the process of caregiver empowerment. Journal of Qualitative Research in Health Sciences, 14(1), 1-8. https://doi.org/10.34172/jqr.1324
Paul, M. M., Khera, N., Elugunti, P. R., Ruff, K. C., Hommos, M. S., Thomas, L. F., ... & Kaur, M. (2025). The State of Remote Patient Monitoring for Chronic Disease Management in the United States. Journal of Medical Internet Research, 27(1), e70422. https://doi.org/10.2196/70422
Santos, I. M. S. C., & Sousa, P. (2022). Reabilitação da pessoa com amputação major de etiologia vascular: Estudo exploratório. Revista de Investigação & Inovação em Saúde, 5(1), 9–22. https://doi.org/10.37914/riis.v5i1.173
Sousa, P., & Santos, I. (2024). The use of eHealth interventions in vascular disease patients with lower limb amputation: Scoping review [abstract]. European Journal of Preventive Cardiology, 31(Suppl 1). https://doi.org/10.1093/eurjpc/zwae175.055
Sousa, P., Cardoso, D., Vrbová, T., Apóstolo, J., Santos, M., Manso, G., Mourão, D., Ferreira, G., Monteiro, M., Manata, J., Vaz, A., Klugarová, J., & Klugar, M. (2023). Postdischarge telephone follow-up among chronic disease patients discharged from a vascular surgery service: A best practice implementation project. JBI Evidence Implementation, 21(S1), S19–S27. https://doi.org/10.1097/XEB.0000000000000380
Takahashi, E. A., Schwamm, L. H., Adeoye, O. M., Alabi, O., Jahangir, E., Misra, S., Still, C. H., & American Heart Association Councils (2022). An overview of telehealth in the management of cardiovascular disease: A scientific statement from the American Heart
22/03/2026
19/09/2027
A pessoa em situação crónica
Self-care and health-disease