Sinais de deterioração clínica percecionados pelos enfermeiros de uma ortopedia traumatológica

A segurança do doente constitui um dos pilares da qualidade dos cuidados de saúde e uma prioridade das organizações e políticas internacionais. A prestação de cuidados seguros implica prevenir eventos adversos evitáveis e implementar estratégias que reduzam os riscos associados aos cuidados, sustentadas na melhor evidência científica (World Health Organization, 2021).

Entre as situações potencialmente evitáveis em contexto hospitalar destaca-se a deterioração clínica, entendida como um agravamento progressivo do estado fisiológico da pessoa, que pode evoluir para falência orgânica, suporte avançado de vida, admissão em cuidados intensivos ou paragem cardiorrespiratória (Royal College of Physicians, 2017). Embora frequentemente percecionados como súbitos, estes eventos são, muitas vezes, precedidos por alterações fisiológicas e clínicas identificáveis horas antes, permitindo intervenção precoce (Chung & Jung, 2024).

Neste âmbito, foram desenvolvidos sistemas de identificação precoce, como o National Early Warning Score 2 (NEWS2), baseado na monitorização de parâmetros fisiológicos, incluindo frequência respiratória, saturação periférica de oxigénio, temperatura corporal, pressão arterial, frequência cardíaca e estado de consciência (Royal College of Physicians, 2017). Contudo, estes instrumentos constituem suporte à decisão clínica, permanecendo indispensáveis a avaliação global da pessoa e o julgamento clínico dos profissionais (Chung & Jung, 2024).

A deterioração clínica não se manifesta apenas por alterações de parâmetros mensuráveis. Os primeiros sinais podem corresponder a mudanças subtis na condição clínica, aparência, comportamento, padrão respiratório, interação ou resposta aos cuidados, aspetos que podem não ser captados por escalas de alerta precoce e dependem da observação contínua dos enfermeiros (Burdeu et al., 2024; Chung & Jung, 2024). O reconhecimento precoce exige integração da informação clínica, capacidade de observação, raciocínio clínico e tomada de decisão.

Segundo Tanner (2006), o julgamento clínico é um processo dinâmico constituído por observar (noticing), interpretar (interpreting), responder (responding) e refletir (reflecting). Perante a deterioração clínica, o enfermeiro identifica alterações, interpreta o seu significado, implementa intervenções e avalia os resultados. Benner (1984) acrescenta que a competência clínica se desenvolve com a experiência profissional, permitindo reconhecer padrões, antecipar complicações e interpretar situações complexas de forma contextualizada.

A identificação precoce da deterioração clínica resulta também da interação entre fatores individuais, organizacionais e contextuais, como formação, experiência clínica, conhecimento prévio da pessoa, carga de trabalho, dotação de enfermeiros, comunicação interprofissional, cultura de segurança e disponibilidade de recursos (Burdeu et al., 2024; Chung & Jung, 2024). As práticas dos enfermeiros incluem vigilância, monitorização, interpretação da informação, comunicação com a equipa e intervenções, apoiadas por sistemas de alerta precoce, equipas de resposta rápida, comunicação estruturada e formação contínua (Hall et al., 2020; Royal College of Physicians, 2017).

Esta competência encontra enquadramento no exercício da enfermagem especializada. O Regulamento n.º 429/2018 de 16 de julho (2018) estabelece como competência específica do Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na Área da Pessoa em Situação Crítica a prestação de cuidados especializados à pessoa em situação crítica ou falência orgânica, mobilizando competências que permitam responder em tempo útil às alterações do estado clínico, prevenir complicações e promover cuidados seguros e de elevada qualidade.

Apesar do desenvolvimento científico e da implementação de sistemas de alerta precoce, permanece limitada a compreensão de como os enfermeiros percecionam o reconhecimento da deterioração clínica na prática, nomeadamente os sinais que valorizam, os fatores que consideram influenciar este processo e as estratégias que mobilizam para prevenir ou minimizar o agravamento (Burdeu et al., 2024; Chung & Jung, 2024). Assim, é pertinente desenvolver este estudo para compreender a perceção dos enfermeiros sobre o reconhecimento da deterioração clínica das pessoas internadas. Os resultados poderão contribuir para melhorar as práticas clínicas, apoiar estratégias formativas e organizacionais e reforçar a segurança e a qualidade dos cuidados.

Enquadramento: A deterioração clínica da pessoa internada exige reconhecimento precoce e intervenção atempada. Os enfermeiros, pela sua presença contínua, assumem uma posição central na vigilância, identificação de alterações e implementação de intervenções.

Objetivos: Compreender a perceção dos enfermeiros com experiência profissional em internamento de ortopedia traumatológica sobre o reconhecimento da deterioração clínica das pessoas internadas, explorando os sinais indiciadores, os fatores que influenciam o reconhecimento precoce, as estratégias utilizadas para reconhecer e intervir e as estratégias minimizadoras da deterioração clínica percecionadas pelos enfermeiros.

Metodologia: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório. Participarão enfermeiros com pelo menos um ano de experiência em internamento de ortopedia traumatológica, selecionados por amostragem intencional e bola de neve, até à saturação dos dados. A recolha será realizada através de entrevistas semiestruturadas, assegurando voluntariedade, consentimento informado, anonimato e confidencialidade.

Resultados esperados: Espera-se identificar sinais, fatores e estratégias para o reconhecimento precoce da deterioração clínica, contribuindo para melhorar práticas, apoiar intervenções formativas e organizacionais e reforçar a segurança e a qualidade dos cuidados.

Objetivo geral:Compreender a perceção dos enfermeiros com experiência profissional em internamento de ortopedia traumatológica sobre o reconhecimento da deterioração clínica das pessoas internadas.

Objetivos específicos:

Explorar as perceções dos enfermeiros sobre os sinais indiciadores da deterioração clínica das pessoas internadas em contexto de ortopedia traumatológica;

Identificar os fatores que influenciam o reconhecimento precoce da deterioração clínica da pessoa internada em ortopedia traumatológica;

Explorar as estratégias utilizadas pelos enfermeiros para reconhecer e intervir perante a deterioração clínica da pessoa internada em ortopedia traumatológica;

Enumerar as estratégias minimizadoras da deterioração clínica da pessoa internada em ortopedia traumatológica, percecionadas pelos enfermeiros.

A investigação pretende aprofundar o conhecimento sobre o reconhecimento precoce da deterioração clínica em pessoas internadas em ortopedia traumatológica, valorizando a perceção e o julgamento clínico dos enfermeiros. A identificação de sinais, fatores e estratégias poderá apoiar melhorias nas práticas, na formação e na organização dos cuidados, contribuindo para intervenções mais precoces, redução do risco de agravamento clínico e reforço da segurança, qualidade e continuidade dos cuidados prestados ao cidadão.

  • Ordem dos Enfermeiros
  • Benner, P. (1984). From novice to expert: Excellence and power in clinical nursing practice. Addison-Wesley.

    Burdeu, G., Rasmussen, B., Lowe, G., & Considine, J. (2025). Acute care nurses’ partnership with patients to recognise and respond to changes in patients’ clinical states: A qualitative study. Journal of Advanced Nursing, 81(6), 3180–3189. doi:10.1111/jan.16520

    Chung, J., & Jung, H. (2024). Indicators of clinical deterioration in adult general ward patients from nurses’ perspectives: A mixed-methods systematic review. BMC Nursing, 23, 861. doi:10.1186/s12912-024-02531-6

    Hall, K. K., Lim, A., & Gale, B. (2020). The use of rapid response teams to reduce failure to rescue events: A systematic review. Journal of Patient Safety, 16(3 Suppl. 1), S3–S7. doi:10.1097/PTS.0000000000000748

    Ordem dos Enfermeiros. (2018). Regulamento n.º 429/2018, de 16 de julho: Regulamento de competências específicas do enfermeiro especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Crítica, na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Paliativa, na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Perioperatória e na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Crónica. Diário da República, 2.ª série, n.º 135.

    Royal College of Physicians. (2017). National Early Warning Score (NEWS) 2: Standardising the assessment of acute-illness severity in the NHS: Updated report of a working party. Royal College of Physicians.

    Tanner, C. A. (2006). Thinking like a nurse: A research-based model of clinical judgment in nursing. Journal of Nursing Education, 45(6), 204–211. doi:10.3928/01484834-20060601-04

    World Health Organization. (2021). Global patient safety action plan 2021–2030: Towards eliminating avoidable harm in health care. World Health Organization.

    Informação do projeto

    • Data de Início

      29/04/2026

    • Data de conclusão

      31/07/2027

    • Projeto Estruturante

      A pessoa em situação crítica

    • Linha Temática

      Self-care and health-disease

    • Target population
      • Enfermeiros.
    • Palavras-chave
      • Deterioração clínica
      • Enfermeiros
      • Enfermagem ortopédica
      • Segurança do paciente
      • Avaliação de enfermagem
    • Áreas prioritárias
      • Formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde
      • Segurança do doente e efetividade dos cuidados
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
      • Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
    • Equipa de Projeto
      • Rute Micaela Lapão de Freitas IR
      • Pedro Alexandre dos Santos Ribeiro OR
      • Ivo Cristiano Soares Paiva OR