A humanização dos cuidados constitui um princípio estruturante da prática de enfermagem, traduzindo-se em cuidados centrados na pessoa, orientados pelo reconhecimento da sua dignidade, singularidade, autonomia, valores e necessidades (McCormack & McCance, 2016). Numa revisão sistemática, Busch et al. (2019) identificaram como elementos-chave da humanização, na perspetiva de doentes, familiares e profissionais, a individualidade e a dignidade da pessoa, a comunicação, a relação terapêutica, o envolvimento da família e o bem-estar dos próprios profissionais. Nos cuidados críticos, o Proyecto HU-CI (Heras La Calle et al., 2017) propôs um plano estruturado de humanização que contempla, entre outras linhas, a comunicação, o bem-estar do doente, a presença e participação da família, a prevenção do burnout dos profissionais e a infraestrutura humanizada, evidenciando que a humanização depende também de condições organizacionais.
Nos SUP, a imprevisibilidade clínica, a elevada intensidade dos cuidados e a crescente pressão organizacional exigem dos enfermeiros a mobilização integrada de competências técnico-científicas, éticas e relacionais (Gholipour et al., 2025), tendendo a secundarizar a dimensão relacional do cuidado. Neste cenário, cabe ao enfermeiro especialista em Enfermagem à PSC garantir cuidados de elevada complexidade que respeitem a dignidade, a individualidade e as necessidades da pessoa e da família (Ordem dos Enfermeiros, 2018).
O APC tem sido amplamente estudado como determinante dos resultados em saúde. Lake (2002) operacionalizou-o na Practice Environment Scale of the Nursing Work Index (PES-NWI), que integra a participação dos enfermeiros na administração hospitalar, os fundamentos de enfermagem para a qualidade dos cuidados, a capacidade, liderança e apoio dos gestores, a adequação de recursos humanos e materiais e as relações colegiais entre enfermeiros e médicos. Ambientes mais favoráveis associam-se a melhor qualidade e segurança dos cuidados, a melhores resultados para os doentes e menores níveis de burnout, insatisfação profissional e intenção de abandono dos enfermeiros (Lake et al., 2019). A dotação, os recursos, a autonomia, a colaboração interprofissional, o suporte organizacional, a cultura de trabalho e o clima ético constituem dimensões que podem favorecer ou limitar a prestação de cuidados centrados na pessoa (Wei et al., 2018).
A articulação entre APC e humanização encontra sustentação no Person-centred Practice Framework (McCormack & McCance, 2016), que reconhece o ambiente de cuidados como domínio condicionante dos processos e resultados centrados na pessoa. Revisões recentes reforçam que a humanização resulta da interação dinâmica entre as competências dos profissionais e as condições organizacionais em que a prática se desenvolve (Reyes-Téllez et al., 2024).
Apesar desta evidência, a investigação tem privilegiado abordagens quantitativas (Lake et al., 2019) e contextos de cuidados intensivos (Heras La Calle et al., 2017), permanecendo insuficientemente explorado o significado que os enfermeiros dos SUP atribuem à influência do APC na sua capacidade de prestar cuidados humanizados à PSC. Uma abordagem qualitativa, de paradigma interpretativo, permitirá identificar as dimensões do APC que, na perspetiva dos profissionais, favorecem ou condicionam a humanização dos cuidados.
A humanização dos cuidados constitui uma exigência ética e profissional da Enfermagem, particularmente desafiante nos Serviços de Urgência Polivalentes (SUP), marcados pela imprevisibilidade clínica, pela elevada intensidade dos cuidados e pela pressão organizacional. A evidência demonstra que o ambiente da prática clínica (APC) influencia a qualidade dos cuidados e os resultados para doentes e profissionais, mas permanece pouco explorado o significado que os enfermeiros atribuem a essa influência na concretização de cuidados humanizados à Pessoa em Situação Crítica (PSC). Este estudo tem como objetivo compreender a influência do APC na humanização dos cuidados prestados à PSC, na perceção dos enfermeiros com experiência profissional em SUP. Estudo qualitativo, descritivo-exploratório, de paradigma interpretativo, sustentado numa proposta conceptual que integra o referencial do APC de Lake e o Person-centred Practice Framework de McCormack e McCance, 2016. Os dados serão recolhidos por entrevista semiestruturada, recrutados por amostragem por redes de referência, com dimensão da amostra orientada pelo princípio da information power, e submetidos a análise de conteúdo segundo Bardin, 2016. O rigor será assegurado pelos critérios de Lincoln e Guba,1985. Espera-se identificar dimensões do APC que favorecem ou condicionam a humanização, sustentando estratégias de melhoria dos contextos de prática.
Objetivo geral
Compreender a influência do Ambiente da Prática Clínica na humanização dos cuidados prestados à Pessoa em Situação Crítica na perceção dos enfermeiros com experiência profissional em Serviços de Urgência Polivalente.
Objetivos específicos
Compreender as conceções dos enfermeiros acerca da humanização dos cuidados prestados à PSC em ambientes de SUP.
Identificar as estratégias desenvolvidas pelos enfermeiros para promover e/ou preservar a humanização dos cuidados em contextos de prática de SUP.
O estudo inova ao compreender a humanização não como atributo exclusivamente individual dos enfermeiros, nem como consequência direta das condições organizacionais, mas como um fenómeno interpretativo que emerge da interação entre ambos. Ao privilegiar a perspetiva dos enfermeiros de SUP, contexto menos estudado do que as unidades de cuidados intensivos e marcado pela tensão permanente entre a resposta técnica imediata e a dimensão relacional do cuidado, e ao integrar o referencial do ambiente da prática de Lake com o Person-centred Practice Framework, contribui para uma compreensão mais abrangente dos fatores organizacionais que condicionam a prestação de cuidados humanizados à PSC e à sua família. Para o cidadão, o impacto esperado traduz-se em cuidados que respeitem a dignidade e a privacidade da pessoa, assegurem uma comunicação efetiva e favoreçam a presença da família. Para as organizações de saúde e para a gestão em enfermagem, os resultados poderão fundamentar estratégias de melhoria dos ambientes de prática e de formação especializada, alinhadas com os planos institucionais de humanização, com potencial reflexo na qualidade e segurança dos cuidados e no bem-estar dos profissionais.
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01/09/2026
31/03/2027
Práticas profissionais e ambientes de cuidados seguros
Care Systems, Organization, Models, and Technology