Equipas de Acesso Vascular em Portugal: Caracterização Organizacional, Práticas e Perceções Profissionais

A obtenção de um acesso vascular constitui um procedimento clínico essencial e transversal a múltiplos contextos assistenciais, sendo determinante para a segurança do doente, a eficiência terapêutica e a gestão de recursos em saúde. Nas últimas duas décadas, a criação de Equipas de Acesso Vascular (EAV) tem sido reconhecida internacionalmente como uma boa prática organizacional, com benefícios comprovados na redução de complicações relacionadas com cateteres, melhoria das taxas de sucesso de inserção e aumento da adesão a protocolos baseados na evidência.

Modelos implementados nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e diversos países europeus demonstraram que as EAV, frequentemente de natureza multidisciplinar e lideradas por profissionais de enfermagem ou medicina, promovem ganhos em segurança, qualidade e custo-efetividade. Estas equipas assumem funções que ultrapassam a mera inserção de dispositivos de acesso vascular, integrando avaliação clínica, seleção do dispositivo adequado, manutenção, vigilância de complicações, formação e consultoria intra-hospitalar. Revisões recentes evidenciam reduções significativas de infeções relacionadas com cateteres, menor tempo de internamento e maior satisfação dos doentes.

Apesar desta evolução internacional, em Portugal o conhecimento sobre a existência e funcionamento das EAV é escasso. A literatura nacional identifica práticas heterogéneas, frequentemente dependentes da iniciativa individual de profissionais ou serviços, sem enquadramento formal em estruturas organizadas. Estudos prévios realizados em contexto nacional sugerem a ausência de protocolos normalizados e de estratégias institucionais de formação contínua nesta área clínica. Tal cenário traduz-se num risco acrescido de variabilidade clínica entre unidades e instituições de saúde portuguesas, com implicações na segurança, na qualidade e na eficiência dos cuidados. Esta lacuna de conhecimento nacional impede o benchmarking com outros contextos europeus e dificulta a formulação de políticas de governação clínica e de segurança do doente nesta área.

Assim, torna-se necessário caracterizar de forma sistemática a realidade portuguesa, identificando a presença, composição, práticas e perceções profissionais associadas às EAV. A recolha e análise de dados nacionais permitirá compreender em que medida as práticas existentes se alinham com as recomendações internacionais, como as emanadas pela Infusion Therapy Standards of Practice (Gorski et al., 2021; Nickel et al., 2024) ou pela Registered Nurses’ Association of Ontario (2021).

O presente projeto posiciona-se, assim, como um contributo pioneiro para o mapeamento e compreensão da organização das EAV em Portugal. O seu desenvolvimento permitirá identificar lacunas e oportunidades de melhoria, promovendo a criação de orientações estratégicas para a formação, implementação e monitorização destas equipas. Espera-se que os resultados apoiem a formulação de políticas de saúde e de enfermagem centradas na segurança vascular, fomentando a integração das EAV nos sistemas institucionais de governação clínica e contribuindo para a harmonização das práticas a nível nacional.

O presente projeto propõe-se caracterizar a organização, práticas e perceções profissionais relativas às Equipas de Acesso Vascular (EAV) em instituições de saúde portuguesas. A criação de EAV tem sido reconhecida internacionalmente como uma estratégia essencial para aumentar a segurança do doente, reduzir complicações e promover a padronização dos cuidados. Contudo, em Portugal, a informação disponível sobre a sua existência e funcionamento é escassa e fragmentada. Este estudo descritivo, de natureza transversal, prevê a aplicação de um inquérito eletrónico a profissionais de saúde de instituições públicas e privadas, recolhendo dados sobre composição das equipas, práticas clínicas, formação, monitorização de complicações e perceções quanto aos benefícios das EAV. A análise quantitativa será complementada por análise temática das respostas abertas. Espera-se que os resultados forneçam a primeira visão nacional sobre esta realidade, apoiando o desenvolvimento de políticas e estratégias de normalização e integração das EAV no sistema de saúde português.

Objetivo geral: Caracterizar a organização, práticas e perceções profissionais relativas às Equipas de Acesso Vascular (EAV) nas instituições de saúde portuguesas.

São objetivos específicos:

i) Identificar a existência, composição e nível de formalização das EAV em diferentes contextos institucionais (públicos e privados);

ii) Descrever as práticas clínicas, estratégias de formação e mecanismos de monitorização de complicações associados às EAV;

iii) Analisar as perceções dos profissionais de saúde sobre os benefícios, desafios e necessidades de desenvolvimento das EAV em Portugal.

O projeto propõe a primeira caracterização nacional das Equipas de Acesso Vascular (EAV) em Portugal, abordando uma área clínica crucial mas até agora pouco estudada. A inovação reside na abordagem sistemática e multidisciplinar à organização dos cuidados de acesso vascular, integrando dimensões estruturais, processuais e percecionais. Ao gerar dados inéditos sobre a presença, composição, práticas e perceções profissionais, o estudo estabelece uma base empírica essencial para o desenvolvimento de políticas de segurança vascular, formação especializada e governação clínica.O impacto social e para o cidadão manifesta-se na melhoria potencial da segurança e qualidade dos cuidados de saúde, através da redução de complicações associadas aos dispositivos vasculares e da promoção de práticas baseadas na evidência. A médio prazo, os resultados poderão apoiar a criação de orientações nacionais e a integração das EAV nos sistemas institucionais, beneficiando diretamente os doentes, os profissionais e a eficiência do Serviço Nacional de Saúde.

Dada a natureza organizacional e profissional do estudo, o envolvimento direto de cidadãos ou doentes na equipa de investigação não é aplicável. Contudo, a perspetiva do cidadão está integrada de forma indireta no desenho do projeto, através do enfoque na segurança, na qualidade dos cuidados e na experiência do doente, dimensões centrais do inquérito e da análise qualitativa.

Os investigadores comprometem-se a garantir que as conclusões do projeto sejam divulgadas de forma acessível e transparente, promovendo a sua tradução para práticas clínicas mais seguras e humanizadas. Serão privilegiados canais de comunicação com associações profissionais e entidades de saúde pública, assegurando que o conhecimento produzido contribua efetivamente para a melhoria dos cuidados prestados aos cidadãos e para a valorização da enfermagem e da multidisciplinaridade em saúde.

  • Associação Portuguesa de Acessos Vasculares (APoAVa)
  • Blanco, I., Rodríguez, M. A., & Carr, P. J. (2024). Specialized vascular access teams. In N. L. Moureau (Ed.), Vessel health and preservation: The right approach for vascular access (2nd ed., Chapter 14). Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-031-48576-3_14

    Fernández-Fernández, A., Palomares-Sancho, I., López-Melgarejo, M., & Pérez-López, M. (2024). Effectiveness of vascular access specialist teams on patient and health system outcomes: A systematic review and meta-analysis. BMJ Open, 14(2), e082631. https://doi.org/10.1136/bmjopen-2023-082631

    Gorski, L. A., Hadaway, L., Hagle, M. E., McGoldrick, M., Orr, M., & Doellman, D. (2021). Infusion therapy standards of practice (8th ed.). Journal of Infusion Nursing, 44(1S), S1–S224.

    Nickel, B., Gorski, L., Kleidon, T., Kyes, A., DeVries, M., Keogh, S., Meyer, B., Sarver, M. J., Crickman, R., Ong, J., Clare, S., & Hagle, M. E. (2024). Infusion therapy standards of practice (9th ed.). Journal of Infusion Nursing, 47(1S), S1–S274. https://doi.org/10.1097/NAN.0000000000000532

    Quinn, A., Rosen, J., & McNally, T. (2023). The role of hospital-based vascular access teams and implications for patient safety and efficiency. Journal of Hospital Medicine, 18(9), 677–684. https://doi.org/10.1002/jhm.13156

    Ricou Ríos, M., Blanco-Mavillard, I., Fernández-Fernández, A., Rodríguez-Calero, M. Á., & Rodríguez-García, C. (2023). Economic evaluation of vascular access teams: A cost-effectiveness analysis in Spanish hospitals. Cost Effectiveness and Resource Allocation, 21(1), 34. https://doi.org/10.1186/s12962-023-00464-6

    Rosich-Soteras, R., González-Sánchez, E., & Martínez-Sánchez, M. (2025). Implementation and outcomes of a vascular access team during the first year of activity in a Spanish tertiary hospital. The Journal of Vascular Access, 26(1), 12–20. https://doi.org/10.1177/11297298231220537

    Santos-Costa, P., Lopes, M., & Ribeiro, O. (2023). Nursing practices and sensitive outcomes related to vascular access care in Portugal. Revista de Enfermagem Referência, 5(31), e21136.

    Santos-Costa, P., Lopes, M., & Ribeiro, O. (2024). From practice to policy: Strengthening vascular access management through evidence-based nursing and multidisciplinary collaboration. Portuguese Journal of Nursing Studies, 12(2), 45–53.

    Informação do projeto

    • Data de Início

      01/07/2025

    • Data de conclusão

      01/06/2026

    • Projeto Estruturante

      Acessos vasculares: práticas de enfermagem e tecnologias associadas

    • Linha Temática

      Care Systems, Organization, Models, and Technology

    • Target population
      • Enfermeiros e médicos de unidades de saúde em contexto nacional
    • Palavras-chave
      • acessos vasculares
      • equipas multidisciplinares
      • prática baseada na evidência
      • segurança do doente
    • Áreas prioritárias
      • Formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde
      • Segurança do doente e efetividade dos cuidados
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
    • Equipa de Projeto
      • Paulo Jorge dos Santos Costa IR
      • Rita Barroca