Os serviços de urgência são caraterizados pela complexidade das situações e dos cuidados prestados à população, escassez de profissionais de todas as categorias, sobrelotação de doentes e a constante mobilização destes. Estes fatores são responsáveis pelo não cumprimento ideal das medidas de prevenção da transmissão de infeção nestes serviços. Assim, é essencial sensibilizar os profissionais, chefias e administradores hospitalares para a tomada urgente de medidas preventivas de controlo de infeção (Figueira, 2013).
As IACS representam um dos maiores desafios presentes na prestação de cuidados de saúde. As taxas de prevalência e o risco de adquirir uma infeção em contexto de Cuidados Intensivos são mais elevadas quando comparadas com outros contextos, devido a vários fatores, nomeadamente, as caraterísticas intrínsecas dos doentes (condição clínica, comorbilidades, extremos de idade e desnutrição), o elevado número de procedimentos e dispositivos invasivos, a alteração do microbioma, a imunossupressão preexistente ou adquirida e as caraterísticas do ambiente de cuidados intensivos, como o ambiente organizacional, a estrutura física e os recursos humanos (Pereira, 2020).
Segundo Valim et al. (2017), a higiene das mãos diminui a carga microbiana das mesmas e evita a disseminação de microrganismos. No âmbito da prevenção e controlo da infeção nosocomial, representa o procedimento mais importante, que todos os profissionais de saúde devem cumprir com rigor no desempenho das suas atividades profissionais. É uma medida simples, de baixo custo e com eficácia comprovada na prevenção da transmissão de infeções. Todavia, a higienização das mãos nos lavatórios dos hospitais, pode estar associada ao aumento do risco associado de infeção, uma vez que estes lavatórios e respetivos ralos podem apresentar resíduos provenientes de descargas de bebidas e sabão, por exemplo, representando reservatórios de microrganismos multirresistentes que estão na origem de vários surtos observados a nível hospitalar, sobretudo se estiverem localizados na área do doente (Kotay et al., 2017; Moloney et al., 2020).
As tubagens de águas residuais estão constantemente húmidas, o que estimula o crescimento de biofilme. Os sifões encontram-se situados abaixo da saída de drenagem e consistem em tubagens moldadas (por exemplo, curvas em U) que retêm a água, formando uma vedação contra a entrada de gás de esgoto. Esta água mantém-se parada quando os equipamentos estão inativos, o que promove a formação de biofilme, que se pode estender até à saída de drenagem do equipamento. Os microrganismos
presentes neste biofilme podem contaminar o lavatório e o ambiente envolvente, especialmente se a água da torneira impactar diretamente o ralo, provocando salpicos e formação de aerossóis durante o seu uso (Moloney et al., 2020).
Lowe et al. (2012), estudaram um surto de infeções por Enterobactérias Produtoras de beta-lactamase produtoras de Klebsiella oxytoca numa Unidade de Cuidados Intensivos de um hospital de Toronto, Canadá, durante um período de 4 anos, concluindo que os lavatórios para a higiene das mãos representaram um reservatório desde microrganismo durante o surto. Observaram que os lavatórios destinados à higienização das mãos estariam também a ser utilizados para descarte de fluidos, incluindo fluidos corporais, tendo sido reforçada a importância de serem apenas utilizados para higienização das mãos. Foi tentada a desinfeção dos ralos com vários desinfetantes, que ficaram a atuar durante 48 horas, sem sucesso. Foi também aumentada a periodicidade de limpeza e desinfeção dos lavatórios e respetivos ralos para 3 vezes por dia, tendo ocorrido uma diminuição da taxa de colonização destes lavatórios e ralos por Klebsiella oxytoca.
Leitner et al. (2015), estudaram um surto provocado por Klebsiella oxytocao numa Unidade de Cuidados Intensivos médica em Graz, Austrália, durante um período de 2 anos, tendo sido identificada a colonização por este microrganismo dos ralos dos lavatórios desta unidade, inclusive no ralo do lavatório da sala de preparação de medicação.
A limpeza destes equipamentos é, muitas vezes, ineficaz no que diz respeito à eliminação completa destes microrganismos, promovendo a colonização dos ralos por microrganismos multirresistentes (Kotay et al., 2017).
Enquadramento: Os serviços de urgência são caraterizados pela complexidade das situações e dos cuidados prestados à população. A água que se mantém parada nos sifões quando os equipamentos estão inativos, promove a formação de biofilme. Os microrganismos presentes no biofilme podem contaminar o lavatório e o ambiente envolvente, sobretudo se a água da torneira impactar diretamente o ralo, provocando salpicos e formação de aerossóis durante o seu uso. A limpeza destes equipamentos é, muitas vezes, ineficaz no que diz respeito à eliminação completa destes microrganismos, promovendo a colonização dos ralos por microrganismos multirresistentes.
Objetivos: Identificar os microrganismos existentes nos ralos e torneiras dos lavatórios do Serviço de Urgência.
Metodologia: Estudo descritivo de abordagem quantitativa. Será realizada colheita de amostras microbiológicas, através de zaragatoa, dos lavatórios e torneiras, posterior análise no laboratório da Universidade de Coimbra.
Resultados esperados: Caracterização da microbiota nos lavatórios e ralos do serviço de urgência, que poderão contaminar profissionais de saúde e doentes. Assim, este estudo contribuirá para se repensar uma melhor localização e utilização destes equipamentos.
Identificar a presença de colónias e das suas características fenotípicas e bioquímicas de microrganismos presentes nos lavatórios, ralos e torneiras do Serviço de Urgência.
A escolha desta temática provém do interesse pessoal da investigadora principal e do possível contributo, para a prática de enfermagem em contexto de cuidados de urgência à pessoa em situação crítica, por forma a serem prestados cuidados com maior qualidade e segurança.
Não está previsto o envolvimento do cidadão na equipa de investigação.
Figueira, A. (2013). Prevenção e Controlo e Infeção no Serviço de Urgência: A Higienização das Mãos [Relatório de Trabalho de Projeto, Instituto Politécnico de Setúbal, Escola Superior de Saúde]. Estudo Geral: Repositório Comum: https://comum.rcaap.pt/handle/10400.26/6100
Kernéis, S., & Lucet, J. C. (2019). Controlling the Diffusion of Multidrug-Resistant Organisms in Intensive Care Units. Seminars in respiratory and critical care medicine, 40(4), 558–568. https://doi.org/10.1055/s-0039-1696980
Kotay S, Chai W, Guilford W, Barry K, Mathers AJ. Spread from the Sink to the Patient: In Situ Study Using Green Fluorescent Protein (GFP)-Expressing Escherichia coli To Model Bacterial Dispersion from Hand-Washing Sink-Trap Reservoirs. Appl Environ Microbiol. 2017 Mar 31;83(8):e03327-16. https://doi.org/10.1128/AEM.03327-16
Leitner, E., Zarfel, G., Luxner, J., Herzog, K., Pekard-Amenitsch, S., Hoenigl, M., Valentin, T., Feierl, G., Grisold, A. J., Högenauer, C., Sill, H., Krause, R., & Zollner-Schwetz, I. (2015). Contaminated handwashing sinks as the source of a clonal outbreak of KPC-2-producing Klebsiella oxytoca on a hematology ward. Antimicrobial agents and chemotherapy, 59(1), 714–716. https://doi.org/10.1128/AAC.04306-14
Lowe C, Willey B, O'Shaughnessy A, Lee W, Lum M, Pike K, Larocque C, Dedier H, Dales L, Moore C, McGeer A; Mount Sinai Hospital Infection Control Team. Outbreak of extended-spectrum β-lactamase-producing Klebsiella oxytoca infections associated with contaminated handwashing sinks. Emerg Infect Dis. 2012 Aug;18(8):1242-7. https://doi.org/10.3201/eid1808.111268
Moloney, E., Deasy, E., Swan, J., Brennan, G., O'Donnell, M., Coleman, D. (2020). Whole-genome sequencing identifies highly related Pseudomonas aeruginosa strains in multiple washbasin U-bends at several locations in one hospital: evidence for trafficking of potential pathogens via wastewater pipes. Journal of Hospital Infection. 104(4): 484-491. https://doi.org/10.1016/j.jhin.2019.11.005
Pereira, R. (2020). Prevenção e Controlo de Infeção. In J. Pinho (Coord.), Enfermagem em Cuidados Intensivos (pp. 321-326). Lidel
Valim, M. D. et al. (2024). Adesão à técnica de higiene das mãos: estudo observacional. Acta Paulista de Enfermagem. (37), 1-9. https://doi.org/10.37689/acta-ape/2024AO00012622
01/02/2025
30/05/2025
Professional practices and safe care environments
Care Systems, Organization, Models, and Technology