A obtenção de um acesso venoso periférico é um dos procedimentos invasivos mais frequentes em contexto hospitalar, essencial para a administração de fluidos, medicação, hemoderivados e suporte nutricional. Apesar de ser percecionado como rotineiro, continua associado a elevadas taxas de falha prematura e complicações, com consequências relevantes para as pessoas e para os sistemas de saúde (Marsh et al., 2023; Ní Chróinín et al., 2023).
Estima-se que até 70% das pessoas hospitalizadas necessitem de, pelo menos, um cateter venoso periférico (CVP) durante o internamento, e que entre um quarto e dois terços destes dispositivos falhem prematuramente por complicações mecânicas, químicas ou infeciosas. O estudo One Million Global Peripheral Intravenous Catheters revelou que cerca de um em cada cinco cateteres apresenta complicações como flebite, infiltração ou deslocação, e que quase um quarto permanece inativo, expondo as pessoas a riscos desnecessários. A falha do dispositivo resulta em interrupção terapêutica, dor, múltiplas punções e depleção do capital venoso, aumentando custos e carga de trabalho. Este impacto é particularmente expressivo nas pessoas com acesso venoso difícil (DIVA), que tendem a acumular tentativas falhadas e cateteres sucessivos até à obtenção de um acesso funcional.
Neste contexto, têm emergido alternativas ao CVP curto, nomeadamente os cateteres midline, considerados seguros e custo-efetivos em terapêuticas de duração intermédia. Marsh et al. (2023) verificaram que os midlines duplicaram o tempo de permanência funcional e reduziram para metade a taxa de falha, sem aumento do risco infecioso. Resultados semelhantes foram descritos em Espanha (Villalba-Nicolau et al., 2022) e numa coorte norte-americana de três anos, com conclusão da terapêutica em mais de 80% das pessoas e complicações major abaixo de 1% (Johnson et al., 2023).
Paralelamente, a literatura internacional demonstra que as equipas especializadas em acessos vasculares (VAST), compostas sobretudo por enfermeiros com formação diferenciada, melhoram a segurança e eficiência da terapêutica intravenosa. Estas equipas asseguram a avaliação da pessoa, a seleção do dispositivo, a inserção ecoguiada, a manutenção e a formação dos profissionais, associando-se a maior sucesso à primeira tentativa, menos complicações, maior satisfação e redução de custos (Morrow et al., 2021; Quinn et al., 2023). Contudo, as avaliações económicas destas equipas permanecem escassas, e as existentes baseiam-se sobretudo em modelação a partir de dados administrativos, anteriores à implementação (Ricou Ríos et al., 2023), sendo rara a evidência obtida prospetivamente em contexto real. Também a experiência reportada pela pessoa raramente é considerada.
Em Portugal, a prática nesta área permanece pouco padronizada. Uma scoping review concluiu que a implementação de práticas baseadas na evidência pelos enfermeiros portugueses é inconsistente, com variação entre instituições e predomínio de procedimentos desatualizados (Santos-Costa et al., 2023). Estão descritas taxas de complicações até 70% e de insucesso à primeira tentativa entre 11% e 33% (Santos-Costa et al., 2024). O país não dispõe de uma norma clínica nacional para o acesso vascular periférico e, até recentemente, não existiam equipas especializadas formalmente constituídas.
A ULS Coimbra implementou recentemente uma VAST, das primeiras em Portugal, sediada na Unidade de Cuidados Intermédios (UCIM) e composta por enfermeiros dedicados à avaliação e gestão de pessoas com DIVA, responsáveis pela seleção do dispositivo mais adequado (incluindo midlines) e pela sua inserção segundo a evidência. Não existem, porém, dados empíricos sobre o seu impacto nos resultados clínicos, na experiência das pessoas ou na eficiência económica, nem qualquer avaliação nacional dos custos associados a estas equipas.
O VAST-P pretende colmatar esta lacuna, gerando a primeira evidência portuguesa sobre o impacto clínico, experiencial e económico de uma VAST, face à gestão convencional nas unidades de internamento, e contribuindo para a discussão nacional sobre a organização dos cuidados à pessoa com necessidade de acesso vascular.
A obtenção de um acesso venoso periférico é um dos procedimentos invasivos mais frequentes em contexto hospitalar, mas continua associado a elevadas taxas de falha prematura e complicações. Em Portugal, a prática nesta área permanece pouco padronizada e não existem dados sobre o impacto das equipas especializadas em acessos vasculares. O projeto VAST-P tem como objetivo avaliar os resultados clínicos, a experiência dos doentes e a relação custo-consequência dos cuidados prestados pela Equipa de Acessos Vasculares (VAST) da ULS Coimbra, comparativamente com a gestão convencional praticada pelas equipas de saúde a nível das unidades de internamento. Integra um estudo transversal das práticas nas unidades de internamento, uma coorte prospetiva dos doentes referenciados à VAST, em que o percurso prévio à referenciação serve de comparador, e uma análise de custo-consequência. Avaliam-se o sucesso à primeira tentativa, as punções, os consumíveis, as complicações, as punções evitadas e a experiência dos doentes. Estes resultados contribuirão para a discussão a nível nacional em torno da organização dos cuidados à pessoa com necessidade de acesso vascular, identificando os potenciais benefícios clínicos e económicos da existência de equipas de enfermagem especializadas e dedicadas nesta área.
Objetivo geral: avaliar os resultados clínicos, a experiência dos doentes e a relação custo-consequência dos cuidados prestados pela Equipa de Acessos Vasculares (VAST) da ULS Coimbra, comparativamente com a gestão convencional praticada pelas equipas de saúde a nível das unidades de internamento.
Objetivos específicos:
Caracterizar as práticas de acesso vascular periférico nas unidades de internamento da ULS Coimbra, através de um estudo transversal, identificando a prevalência de dispositivos, o tipo de cateter, a localização, a fixação, os cateteres inativos e as complicações observáveis;
Descrever as práticas, os resultados clínicos e a experiência dos doentes referenciados à VAST, incluindo a avaliação e gestão de pessoas com acesso venoso difícil (DIVA), a seleção do dispositivo, o sucesso à primeira tentativa, o tempo de permanência e as complicações dos cateteres periféricos e midline inseridos pela equipa;
Comparar o percurso de acesso vascular de cada doente antes da referenciação à VAST (cateteres colocados, tentativas de punção, complicações e consumíveis) com os resultados obtidos após a sua intervenção, quantificando as punções e cateterizações evitadas;
Realizar uma análise de custo-consequência, por micro-custeio, comparando os custos e os desfechos associados à gestão convencional e à intervenção da VAST, e estimar o potencial impacto orçamental da sua expansão, gerando a primeira evidência económica sobre uma VAST em Portugal;
Sintetizar e disseminar os resultados através de ações de formação, de um evento final e de publicações científicas, traduzindo-os em recomendações para a governação dos acessos vasculares na ULS Coimbra e para a discussão nacional sobre a organização dos cuidados à pessoa com necessidade de acesso vascular.
O VAST-P é o primeiro estudo português a avaliar o impacto clínico, experiencial e económico de uma equipa especializada em acessos vasculares. A inovação reside também no desenho, na medida em que ao reconstituir o percurso de cada doente antes da referenciação à VAST, cada pessoa funciona como o seu próprio comparador, permitindo quantificar as punções, cateterizações e custos evitados em contexto real, algo raro na literatura internacional, baseada sobretudo em modelação.
Para o cidadão, o impacto traduz-se em cuidados mais seguros e confortáveis, como menos punções falhadas, menos dor e complicações, preservação do capital venoso e maior continuidade terapêutica, com especial relevância para as pessoas com acesso venoso difícil, frequentemente sujeitas a múltiplas tentativas.
Para a sociedade e o sistema de saúde, o estudo produzirá evidência sobre a utilização eficiente de recursos, apoiando decisões sobre a expansão e institucionalização destas equipas. Os resultados poderão suportar a discussão nacional sobre a organização dos cuidados à pessoa com necessidade de acesso vascular e o reconhecimento de equipas de enfermagem especializadas e dedicadas nesta área. O envolvimento de estudantes, a formação de profissionais e a partilha de dados abertos reforçam a ligação entre investigação, ensino e prática clínica.
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Ricou Ríos, L., Esposito Català, C., Pons Calsapeu, A., Adroher i Mas, C., Andrés Martínez, I., Nuño Ruiz, I., Castellà Creus, M., Castellà Fàbregas, L., García Quesada, M. J., Estrada Cuxart, O., Ara del Rey, J., & López Seguí, F. (2023). Implementation of a vascular access specialist team in a tertiary hospital: A cost-benefit analysis. Cost Effectiveness and Resource Allocation, 21(1), 67. https://doi.org/10.1186/s12962-023-00464-6
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30/03/2026
30/09/2027
Acessos vasculares: práticas de enfermagem e tecnologias associadas
Care Systems, Organization, Models, and Technology