Experiência e Satisfação do Utilizador com o Dispositivo de Hidratação Subcutânea

A desidratação é um distúrbio hídrico comum, associado a aumento de morbidade, mortalidade e declínio funcional, especialmente em pessoas idosas (Boccardi et al., 2022). Embora apresente alta prevalência em ambientes hospitalares e institucionalizados, também é frequente em contextos domiciliários, onde pode permanecer subdiagnosticada e subtratada (Bruno et al., 2021). No envelhecimento, alterações fisiológicas como redução da sensação de sede, diminuição da água corporal total e menor capacidade de concentração renal, associadas à presença de Doenças Crónicas Não Transmissíveis (DCNT), ampliam o risco de desidratação e dificultam sua identificação precoce (Li et al., 2023; Queirós et al., 2023).

Entre pessoas idosas, a desidratação repercute em maior complexidade assistencial e uso de recursos de saúde, com prolongamento de internamentos e incremento de custos para os sistemas públicos, frequentemente agravados pela subnotificação e pela identificação tardia da condição. Em países como os Estados Unidos, estima-se impacto económico expressivo, com custos médios elevados por internamento e importante carga financeira anual relacionada a casos potencialmente evitáveis (Paterson et al., 2014; Xiao et al., 2019). Esses dados reforçam a relevância de estratégias que favoreçam a gestão adequada da desidratação em idosos, sobretudo no contexto domiciliário, onde se procura conciliar segurança, autonomia e racionalização do uso de serviços de saúde.

Nesse cenário, a Terapia Subcutânea (TS) destaca-se como alternativa amplamente reconhecida para administração de fluidos e medicamentos pela via subcutânea, de forma lenta, contínua ou intermitente (Saganski et al., 2019). A TS é uma prática clínica estabelecida, baseada em dispositivos e equipamentos já validados e disponíveis no mercado, cuja eficácia e segurança foram previamente comprovadas através de aprovações regulatórias.

Em ambiente domiciliário, a TS tem sido utilizada em pessoas idosas por se configurar como técnica menos invasiva, mais confortável e bem tolerada, contribuindo para a continuidade do cuidado no próprio domicílio, com menor necessidade de deslocações e maior participação de cuidadores no processo de cuidado (Martins et al., 2019; Adem; Almouaalamy, 2021; Broadhurst et al., 2020). Nesses contextos, embora a supervisão do enfermeiro seja essencial, a escassez de profissionais e a crescente exigencia por cuidados em casa evidenciam a importância de soluções tecnológicas que facilitem a execução segura da TS por cuidadores com treino básico, apoiados em protocolos claros e dispositivos de fácil manuseamento (Broadhurst et al., 2023; Martins et al., 2019).

Atualmente, a realização da TS costuma envolver bombas de infusão, sistemas de soros e cateteres intravenosos adaptados, frequentemente compondo sistemas abertos e dependentes de ação gravitacional ou de eletricidade. Essa configuração exige conexões manuais no momento da preparação e, por vezes, ao longo da infusão, o que aumenta a complexidade do procedimento, eleva o risco de contaminação e limita a mobilidade da pessoa em uso do dispositivo, favorecendo situações de desconforto e insegurança. Assim, observa-se um espaço importante para o desenvolvimento de tecnologias específicas para hidratação subcutânea em domicílio, que sejam mais simples, portáteis, seguras e compatíveis com o uso por cuidadores não profissionais.

Nesse contexto, o Dispositivo de Hidratação Subcutânea (DHS) surge como uma proposta tecnológica com a hidratação subcutânea em ambiente domiciliário, concebida para ser um sistema fechado, de fácil utilização e não dependente de eletricidade, por utilizar uma bomba elastomérica que funciona por pressão interna (Instituto Nacional da Propriedade Industrial, 2017). Em Portugal, pesquisadores da Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC) desenvolveram e patentearam o DHS como modelo de utilidade, caracterizando-o como inovação incremental, isto é, um aperfeiçoamento de um produto já existente, com foco na melhoria da experiência e satisfação do utilizador final (Geng, 2021). O dispositivo integra, em um único sistema, componentes acoplados em processo industrial, um cateter com melhor ajustamento anatómico à pele e uma bomba elastomérica, favorecendo o uso em domicílio por pessoas sem formação médica ou de enfermagem.

A desidratação em pessoas idosas constitui um problema frequente, associado a declínio funcional, maior morbidade e aumento da complexidade assistencial, especialmente quando a hidratação oral é insuficiente. Nesse contexto, a terapia subcutânea surge como alternativa segura e menos invasiva, com potencial para favorecer o cuidado em ambiente hospitalar e domiciliário. Este estudo tem como objetivo avaliar a usabilidade do protótipo do Dispositivo de Hidratação Subcutânea, bem como a satisfação e a experiência de utilização por pessoas idosas com desidratação ligeira. Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e qualitativo, a realizar-se numa unidade de cuidados continuados e hospitalar em Portugal, com amostra estimada de 10 participantes. A recolha de dados incluirá questionário sociodemográfico e clínico, Mini-Exame do Estado Mental e entrevista semiestruturada sobre satisfação e perceção do dispositivo. A análise dos dados qualitativos será feita por análise de conteúdo temática. Espera-se identificar potencialidades e fragilidades do protótipo, contribuindo para o aprimoramento da tecnologia, para a segurança do utilizador e para a qualificação da assistência de enfermagem na hidratação subcutânea

Geral:

Avaliar a usabilidade do protótipo do Dispositivo de Hidratação Subcutânea para a hidratação subcutânea em pessoas doentes idosas, com desidratação leve.

Específicos:

Avaliar a satisfação da pessoa doente em relação ao uso do protótipo do DHS;

Analisar as potencialidades e fragilidades do protótipo do DHS no manuseamento pelo utilizador.

A inovação deste projeto reside na criação de uma tecnologia assistencial simplificada, o Dispositivo de Hidratação Subcutânea (DHS), que integra componentes já validados em um sistema fechado, intuitivo e seguro. A proposta rompe com a complexidade dos sistemas de infusão tradicionais, muitas vezes dependentes de eletricidade e conexões manuais, oferecendo uma solução otimizada que promove a autonomia do doente idoso e facilita a execução segura da hidratação por cuidadores não profissionais. Do ponto de vista social, o impacto é direto e significativo: ao permitir a continuidade do cuidado no ambiente domiciliário com maior segurança e conforto, o dispositivo reduz a necessidade de deslocações frequentes a unidades de saúde, diminui a pressão sobre os serviços públicos e potencia a qualidade de vida dos idosos, combatendo o subdiagnóstico e o subtratamento da desidratação. Além disso, a investigação adota a metodologia de Human-Centered Design, colocando as necessidades reais dos utilizadores no centro do desenvolvimento, o que garante que a tecnologia final seja não apenas eficiente do ponto de vista técnico, mas também acolhedora e adequada às expectativas dos cidadãos. Em última análise, este estudo contribui para a inovação nas práticas de enfermagem e para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, promovendo um modelo de cuidado mais humanizado, centrado no utente e alinhado às necessidades emergentes do envelhecimento populacional.

  • Escola de Enfermagem Anna Nery
  • ADEM, S.; ALMOUAALAMY, N. Effectiveness and safety of hypodermoclysis patients with cancer: a single-center experience from Saudi Arabia. Cureus, v. 13, n. 3, e13785, 2021. Disponível em: https://doi-org.ez29.periodicos.capes.gov.br/10.7759/cureus.13785

    BARDIN, L. Análise de conteúdo. Trad. Luís Antero Reto; Augusto Pinheiro. São Paulo: Edições 70, 2016. 279 p.

    BARROS, Thayna Silva de Assis. Construção e avaliação de usabilidade de um protótipo de dispositivo de hidratação subcutânea. p. 111–111, 2024.

    BOCCARDI, V. et al. Dealing with dehydration in hospitalized oldest persons: accuracy of the calculated serum osmolarity. Aging Clinical and Experimental Research, v. 34, n. 10, p. 2547–2552, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s40520-022-02185-x. Acesso em: 10 maio 2025.

    BROADHURST, D. et al. Subcutaneous hydration and medications infusions (effectiveness, safety, acceptability): a systematic review of systematic reviews. PloS One, v. 15, n. 8, p. e0237572, 2020.

    BRUNO, C. et al. Intervenções para melhorar a hidratação em idosos: uma revisão sistemática e meta-análise. Nutrientes, v. 13, n. 10, p. 3640, 2021.

    CARFAGNI, M. et al. Usefulness of prototypes in conceptual design: students’ view. International Journal on Interactive Design and Manufacturing (IJIDeM), v. 14, n. 4, p. 1305–1319, 1 dez. 2020.

    HARTE, R. et al. A human-centered design methodology to enhance the usability, human factors, and user experience of connected health systems: a three-phase methodology. JMIR Human Factors, v. 4, n. 1, p. e5443, 16 mar. 2017.

    INSTITUTO NACIONAL DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL. Patente Nacional nº 109051 – Dispositivo de Hidratação Subcutânea. 2017. Disponível em: https://pt.espacenet.com/searchResults?CY=pt&DB=EPODOC&F=0&FIRST=1&LG=pt&PN=PT109051&Submit=PESQUISAR&bookmarkedResults=true&locale=pt_pt&sf=n

    LI, S.; XIAO, X.; ZHANG, X. Hydration status in older adults: current knowledge and future challenges. Nutrients, v. 15, n. 11, p. 2609, 2 jun. 2023.

    MARCILLY, R. et al. Detectability of use errors in summative usability tests of medical devices: impact of the test environment. Applied Ergonomics, v. 118, p. 104266, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.apergo.2024.104266

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    PATERSON, M. J. et al. Dehydration following hospital admission: an analysis of economic burden and risk factors. Value in Health, v. 17, n. 7, p. A469, 2014. DOI: 10.1016/j.jval.2014.08.1265. Disponível em: https://www.valueinhealthjournal.com/article/S1098-3015(13)03886-2/fulltext.

    QUEIRÓS, C. et al. Urinary hydration biomarkers and water sources in older adults with neurocognitive disorder. Nutrients, v. 15, n. 3, p. 548, jan. 2023.

    SAGANSKI, G. F. et al. Hipodermóclise para tratamentos não convencionais em pediatria: revisão integrativa. Cogitare Enfermagem, v. 24, 4 out. 2019.

    STILL, B.; CRANE, K. Fundamentals of user-centered design: a practical approach. 1. ed. [S.l.]: CRC Press, 2017.

    VANDEWALLE, V. et al. Estimating the number of usability problems affecting medical devices: modelling the discovery matrix. BMC Medical Research Methodology, v. 20, n. 1, p. 234, 2020. Disponível em: https://doi-org.ez29.periodicos.capes.gov.br/10.1186/s12874-020-01091-y

    XIAO, H.; BARBER, J.; CAMPBELL, E. S. Economic burden of dehydration among hospitalized elderly patients. American Journal of Health-System Pharmacy, v. 76, n. 16, p. 1127–1134, 2019. DOI: 10.1093/ajhp/zxz102. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31378848/.

    Informação do projeto

    • Data de Início

      28/11/2024

    • Data de conclusão

      28/11/2028

    • Projeto Estruturante

      Inovação em Tecnologias dos Cuidados de Saúde: Estudo e desenvolvimento de soluções inovadoras

    • Linha Temática

      Care Systems, Organization, Models, and Technology

    • Target population
      • Idosos entre 65 a 79 anos
    • Palavras-chave
      • Design centrado no usuário
      • Hipodermóclise
      • Equipamentos e provisões
      • Desidratação
      • Cuidados de enfermagem
    • Áreas prioritárias
      • Inovação em Tecnologia dos cuidados de enfermagem
      • Envelhecimento ativo
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
    • Equipa de Projeto
      • Thayna Silva de Assis Barros IR
      • Anabela de Sousa Salgueiro Oliveira OR