Os desafios vividos pelos estudantes de enfermagem na comunicação e relação com a pessoa cuidada em contexto de ensino clínico: um estudo descritivo

A comunicação em enfermagem constitui uma competência interpessoal fundamental para identificar e responder às necessidades da pessoa cuidada, sendo determinante para a qualidade dos cuidados prestados (Giménez-Espert et al., 2023). O estabelecimento de uma relação terapêutica eficaz depende da capacidade do enfermeiro comunicar de forma adequada, empática e ajustada ao contexto. Assim, o desenvolvimento de competências comunicacionais assume particular importância durante a formação inicial em enfermagem (Moghadam et al., 2025).A transição do ambiente académico para os contextos reais de prestação de cuidados representa um momento exigente no percurso formativo dos estudantes de enfermagem. Esta fase implica a integração de conhecimentos teóricos, competências técnicas e capacidades relacionais em ambientes clínicos complexos (Melo et al., 2017). Nos primeiros ensinos clínicos, os estudantes enfrentam frequentemente níveis elevados de stress e ansiedade, sendo o desenvolvimento da relação com a pessoa cuidada identificado como um dos principais desafios (Gomes et al., 2024; Moghadam et al., 2025).A literatura internacional evidencia que a comunicação entre estudantes de enfermagem e a pessoa cuidada constitui uma dificuldade frequente nos primeiros contextos clínicos. Estudos demonstram que, ao iniciarem a prática clínica, os estudantes experienciam sentimentos de ansiedade, insegurança e medo de errar, fatores que podem comprometer a sua capacidade de estabelecer uma comunicação terapêutica eficaz (Sharif & Masoumi, 2005; Sun et al., 2016; Mahasneh et al., 2021). Estes resultados são também corroborados por estudos nacionais, que reconhecem a comunicação como uma competência essencial, mas complexa, cuja aplicação em contextos reais se revela particularmente exigente nas fases iniciais da formação (Ferreira et al., 2016; Feijó, 2022).As dificuldades comunicacionais manifestam-se sobretudo na iniciação do contacto com a pessoa cuidada, na manutenção do diálogo terapêutico e na gestão das respostas emocionais. Estudantes em primeira experiência clínica referem receio de dizer algo inadequado, dificuldade em iniciar conversas e insegurança na gestão das emoções dos utentes (Harmanci, 2023). Resultados semelhantes são descritos por Jamshidi et al. (2016), que identificam a comunicação com os utentes como um dos principais desafios do ambiente de aprendizagem clínica.A ansiedade e o stress surgem como fatores que interferem negativamente na iniciativa comunicacional dos estudantes. A ansiedade associada ao primeiro ensino clínico pode conduzir a comportamentos de evitamento e a interações superficiais com a pessoa cuidada (Sun et al., 2016). De forma semelhante, níveis elevados de stress têm sido associados a competências comunicacionais menos desenvolvidas (Aktan & Khorshid, 2021). Para além dos fatores individuais, o contexto clínico também influencia a comunicação, sendo ambientes pouco acolhedores, relações hierárquicas rígidas ou supervisão insuficiente associados a maior insegurança comunicacional (O’Mara et al., 2014; Papastavrou et al., 2016).Apesar da relevância deste tema, a comunicação é frequentemente abordada de forma indireta na literatura, integrada em estudos sobre ansiedade, stress ou ambiente de aprendizagem clínica (Sharif & Masoumi, 2005; Jafarian-Amiri et al., 2020). No contexto português, embora existam investigações sobre competências comunicacionais no ensino clínico, permanece limitada a produção científica centrada especificamente nos desafios da comunicação vivenciados pelos estudantes de enfermagem na interação direta com a pessoa cuidada e com a família.Assim, justifica-se a realização de um estudo exploratório-descritivo que permita compreender, de forma aprofundada, os desafios vivenciados pelos estudantes de enfermagem na comunicação com a pessoa cuidada e com a família durante os ensinos clínicos. A compreensão destes desafios poderá contribuir para identificar necessidades formativas, apoiar o desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais adequadas e promover o desenvolvimento de competências comunicacionais essenciais desde as fases iniciais da formação em enfermagem, com impacto na qualidade dos cuidados prestados.

Introdução: A comunicação em enfermagem constitui uma competência interpessoal essencial para a qualidade dos cuidados e para o estabelecimento de uma relação terapêutica eficaz com a pessoa cuidada. O desenvolvimento destas competências é particularmente relevante durante a formação inicial dos estudantes de enfermagem. Contudo, a transição para os primeiros contextos de ensino clínico representa um desafio, marcado pela necessidade de integrar conhecimentos técnicos, competências relacionais e adaptação a ambientes clínicos complexos.Objetivo: Compreender os desafios vivenciados pelos estudantes de enfermagem na comunicação com a pessoa cuidada e com a família durante os ensinos clínicos.Metodologia: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório. A recolha de dados será realizada através de entrevistas semiestruturadas a estudantes de enfermagem da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra que tenham experiência em ensino clínico. Os dados serão analisados através de análise temática segundo Braun e Clarke.Resultados esperados: Espera-se identificar dificuldades comunicacionais, estratégias utilizadas pelos estudantes e fatores facilitadores ou dificultadores da comunicação em contexto clínico.

Objetivos do Estudo: • Compreender os desafios vivenciados pelos estudantes de enfermagem na comunicação com a pessoa cuidada e com a família durante os ensinos clínicosQuestões de investigação • Identificar os principais desafios comunicacionais vivenciados pelos estudantes de enfermagem nos diferentes contextos de ensino clínico;• Quais as dificuldades sentidas/experienciadas pelos estudantes de enfermagem na comunicação com as pessoas cuidadas e seus conviventes significativos durante os ensinos clínicos?• Que estratégias utilizam os estudantes para ultrapassar ou minimizar os desafios de comunicação com as pessoas cuidadas e seus conviventes significativos durante os ensinos clínicos?• Que aspetos são percecionados pelos estudantes de enfermagem como facilitadores ou dificultadores da comunicação em contexto de ensino clínico?• Como percecionam os estudantes de enfermagem a influência do ensino clínico no desenvolvimento das competências comunicacionais?

No presente estudo não se prevê o envolvimento formal de cidadãos no desenho, condução ou análise da investigação. Contudo, importa referir que os participantes do estudo são estudantes de enfermagem que se encontram numa fase inicial do seu desenvolvimento académico e científico. Considerando esta fase de formação e desenvolvimento, os estudantes participantes podem igualmente ser entendidos como cidadãos que partilham as suas experiências e perceções relativamente ao fenómeno em estudo. Assim, embora participem enquanto estudantes em formação, a sua participação permitirá integrar a perspetiva dos cidadãos sobre os desafios vivenciados na comunicação em contexto de ensino clínico, contribuindo para a produção de conhecimento científico relevante para a formação em enfermagem e para a melhoria da qualidade dos cuidados de saúde.

  • Univ Coimbra, Escola Superior de Enfermagem
  • Aktan, G. G., & Khorshid, L. (2021). Communication skills and perceived stress of nursing students during first clinical experience. Perspectives in Psychiatric Care, 57(3), 1095–1102. https://doi.org/10.1111/ppc.12658

    Albuquerque, C., & Condeço, J. (2025). Supervisão clínica em enfermagem: Implicações para a integração e aprendizagem dos estudantes. Millenium – Journal of Education, Technologies, and Health. https://revistas.rcaap.pt/millenium

    Ferreira, M. A., Silva, M. J., & Simões, J. F. (2016). Competências comunicacionais e relacionais dos estudantes de enfermagem. Revista de Enfermagem Referência, IV(8), 47–56.

    Feijó, N. (2022). Comunicação entre estudantes de enfermagem e utentes em contexto clínico: Desafios em tempo de pandemia. Germinare – Revista Científica do Instituto Piaget, 1(1), 1–12.

    Giménez-Espert, M. C., Maldonado, S., & Prado-Gascó, V. (2023). Influence of emotional skills on attitudes towards communication: Nursing students vs. nurses. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(6), 4798. https://doi.org/10.3390/ijerph20064798

    Giménez-Espert, M. C., Prado-Gascó, V., & Soto-Rubio, A. (2023). Therapeutic communication, empathy, and emotional intelligence in nursing care: A systematic review. Journal of Clinical Nursing, 32(1–2), 12–25. https://doi.org/10.1111/jocn.16245

    Gomes, J., Sousa, S., & Sá, L. (2024). Fatores indutores de stress nos estudantes de enfermagem em ensino clínico: Scoping review. Revista de Enfermagem Referência, 6(3), 1–8. https://doi.org/10.12707/RVI23.89.32425

    Gomes, R. M., Pereira, F., & Silva, A. L. (2024). Stress académico e adaptação ao ensino clínico em estudantes de enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, (31), 45–54.

    Harmanci, P. (2023). The difficulties experienced in patient communication by nursing students taking the clinical practice course for the first time: A qualitative study. European Journal of Clinical and Experimental Medicine, 21(4), 628–635. https://doi.org/10.15584/ejcem.2023.4.8

    Jamshidi, N., Molazem, Z., Sharif, F., Torabizadeh, C., & Kalyani, M. N. (2016). The challenges of nursing students in the clinical learning environment: A qualitative study. The Scientific World Journal, 2016, Article 1846178. https://doi.org/10.1155/2016/1846178

    Jafarian-Amiri, S. R., Khosravi, S., & Baradaran-Seyed, Z. (2020). Challenges of supporting nursing students in clinical education: A systematic review. Journal of Education and Health Promotion, 9, 239. https://doi.org/10.4103/jehp.jehp_51_20

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    Melo, R., Queirós, P., Tanaka, L., Costa, P., Bogalho, C., & Oliveira, P. (2017). Dificuldades dos estudantes do curso de licenciatura de enfermagem no ensino clínico: Perceção das principais causas. Revista de Enfermagem Referência, IV(15), 55–64. https://doi.org/10.12707/RIV17059

    Mercan, N., Akyol, A., & Bektaş, M. (2025). Evaluation of therapeutic communication skills of nursing students during clinical practice. Clinical Epidemiology and Global Health, 24, Article 101406. https://doi.org/10.1016/j.cegh.2025.101406

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    O’Mara, L., McDonald, J., Gillespie, M., Brown, H., & Miles, L. (2014). Challenging clinical learning environments: Experiences of undergraduate nursing students. Nurse Education in Practice, 14(2), 208–213. https://doi.org/10.1016/j.nepr.2013.08.012

    Papastavrou, E., Dimitriadou, M., Tsangari, H., & Andreou, C. (2016). Nursing students’ satisfaction of the clinical learning environment: A research study. BMC Nursing, 15, Article 44. https://doi.org/10.1186/s12912-016-0164-4

    Sharif, F., & Masoumi, S. (2005). A qualitative study of nursing student experiences of clinical practice. BMC Nursing, 4, Article 6. https://doi.org/10.1186/1472-6955-4-6

    Sun, F. K., Long, A., Tseng, Y. S., Huang, H. M., You, J. H., & Chiang, C. Y. (2016). Undergraduate student nurses’ lived experiences of anxiety during their first clinical practicum. Nurse Education Today, 37, 21–26. https://doi.org/10.1016/j.nedt.2015.11.001

    Vahidi, M., et al. (2025). Exploring the barriers to nursing students’ speaking up in clinical settings: A qualitative study. BMC Nursing, 24, Article 112. https://doi.org/10.1186/s12912-025-01987-6

    Informação do projeto

    • Data de Início

      05/04/2026

    • Data de conclusão

      05/04/2027

    • Projeto Estruturante

      Comunicação, relação e Humanização de Cuidados

    • Linha Temática

      Care Systems, Organization, Models, and Technology

    • Target population
      • Estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem
    • Palavras-chave
      • Comunicação
      • Estudantes de enfermagem
      • Competências comunicacionais
      • Ensino clínico
    • Áreas prioritárias
      • Formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
    • Equipa de Projeto
      • Ana Filipa dos Reis Marques Cardoso IR
      • Daniela Filipa Batista Cardoso OR
      • Miriam Carvalho Correia
      • Lara Sofia Duarte Mena
      • Carina da Rocha Rodrigues