Nas últimas décadas, a prática farmacêutica tem evoluído significativamente, passando de um modelo centrado na manipulação e dispensa de medicamentos para uma abordagem centrada na pessoa, integrada no conceito de Cuidados Farmacêuticos (Mathew et al., 2010; Villako, 2012; Eze, 2023). Neste contexto, o farmacêutico comunitário é atualmente reconhecido como um dos profissionais de saúde mais acessíveis à população, desempenhando um papel relevante não apenas na gestão da terapêutica, mas também na abordagem de situações agudas e na monitorização de doenças crónicas (Lau, 2019; Eze, 2023).Contudo, esta evolução exige mais do que competências técnicas, implicando a adoção de uma comunicação centrada na pessoa. De acordo com Naughton (2018), a farmácia moderna deve afastar-se de um modelo exclusivamente biomédico, focado na doença e nos parâmetros clínicos, para integrar uma abordagem biopsicossocial. Este modelo reconhece que a saúde resulta da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, exigindo que o farmacêutico compreenda a experiência individual da doença para além da patologia.A promoção da literacia em saúde, particularmente a literacia relacionada com o medicamento, constitui uma competência central do farmacêutico. Embora a transmissão de informação técnica sobre posologia ou efeitos adversos seja prática comum, evidência internacional demonstra que a satisfação do farmacêutico com o aconselhamento prestado não se traduz necessariamente em conhecimento efetivo por parte dos utentes (Tadesse et al., 2023). Neste sentido, a utilização de linguagem clara (“speaking plainly”) é considerada uma estratégia fundamental para garantir que a informação é compreendida e retida, evitando o uso excessivo de jargão técnico e assumindo que todos os utentes podem apresentar níveis variáveis de literacia em saúde (Naughton, 2018).Apesar do alargamento do papel clínico do farmacêutico, a literatura sugere que persiste um desfasamento entre este papel e a perceção pública. Muitos utentes continuam a associar o farmacêutico sobretudo à dispensa de medicamentos ou à dimensão comercial da farmácia, subvalorizando o seu potencial como educador em saúde e gestor da terapêutica (Mathew et al., 2010; Eze, 2023; Tadesse, 2023).Esta discrepância pode estar relacionada com barreiras comunicacionais e relacionais. Segundo Naughton (2018), a postura do farmacêutico enquanto “especialista do medicamento” pode, por vezes, privilegiar o conhecimento científico em detrimento da experiência do utente. Além disso, a perceção de falta de tempo e a ausência de escuta ativa podem comprometer o estabelecimento de uma relação terapêutica baseada na confiança. Enquanto os profissionais tendem a focar-se em evidência orientada para a doença, os utentes valorizam sobretudo resultados que impactam a sua qualidade de vida e funcionamento diário, designados como “Patient-Oriented Evidence that Matters” (POEMs) (Naughton, 2018). Esta diferença de perspetivas pode originar falhas na comunicação, em que profissional e utente não partilham o mesmo entendimento (Lau, 2019).Embora exista literatura internacional sobre a perceção dos utentes relativamente aos serviços farmacêuticos, abrangendo contextos como Nigéria, Etiópia, Eritreia, Austrália e Estónia, em Portugal persistem lacunas relevantes, especialmente no que diz respeito a estudos qualitativos que explorem em profundidade a experiência e o discurso dos utentes (Villako, 2012; Soares, 2021; Tadesse, 2023; Eze, 2023). Apesar de algumas iniciativas nacionais focadas na avaliação quantitativa da literacia em saúde, permanece pouco esclarecido de que forma os utentes interpretam e valorizam as interações com o farmacêutico comunitário (Soares, 2021).Assim, torna-se fundamental compreender se os utentes reconhecem efetivamente a prestação de serviços farmacêuticos de natureza clínica ou se a sua experiência continua predominantemente associada ao ato da dispensa de medicamentos (Mathew et al., 2010; Eze, 2023). Neste sentido, o presente estudo pretende explorar a perspetiva dos utentes, identificando barreiras comunicacionais, necessidades não satisfeitas e oportunidades para reforçar o papel do farmacêutico como promotor da literacia em saúde e da saúde pública no contexto do sistema de saúde português (Lau, 2019; Tadesse, 2023; Eze, 2023).
O projeto pretende compreender as perceções dos utentes sobre a comunicação centrada na pessoa na interação com farmacêuticos comunitários, médicos de família e enfermeiros de família, em contexto comunitário. Trata-se de um estudo transversal, exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa. A recolha de dados será realizada através de entrevistas semiestruturadas a utentes adultos, selecionados por amostragem intencional até à saturação dos dados. O estudo procura identificar como os utentes percecionam a comunicação com estes profissionais, que elementos valorizam e que barreiras e facilitadores reconhecem. As entrevistas serão transcritas e analisadas por análise temática, segundo Braun e Clarke. Os resultados poderão contribuir para melhorar a comunicação em saúde, reforçar práticas centradas na pessoa e apoiar a formação e a organização dos cuidados.
Tarefa 1. Estudo exploratório sobre a perceção dos utentes acerca da comunicação centrada na pessoa na relação com os farmacêuticos comunitáriosObjetivo específicoExplorar como os utentes percecionam a comunicação centrada na pessoa na relação com os farmacêuticos comunitários.Questões de investigação1. Como percecionam os utentes a comunicação centrada na pessoa na interação com os farmacêuticos comunitários? 2. Que elementos da comunicação com os farmacêuticos comunitários são valorizados pelos utentes como promotores de uma abordagem centrada na pessoa? 3. Que barreiras e facilitadores identificam os utentes na comunicação com os farmacêuticos comunitários? Tarefa 2. Estudo exploratório sobre a perceção dos utentes acerca da comunicação centrada na pessoa na relação com os médicos de famíliaObjetivo específicoExplorar como os utentes percecionam a comunicação centrada na pessoa na relação com os médicos de família, em contexto comunitário.Questões de investigação1. Como percecionam os utentes a comunicação centrada na pessoa na interação com os médicos de família, em contexto comunitário? 2. Que elementos da comunicação com os médicos de família são valorizados pelos utentes como promotores de uma abordagem centrada na pessoa? 3. Que barreiras e facilitadores identificam os utentes na comunicação com os médicos de família, em contexto comunitário? Tarefa 3. Estudo exploratório sobre a perceção dos utentes acerca da comunicação centrada na pessoa na relação com os enfermeiros de famíliaObjetivo específicoExplorar como os utentes percecionam a comunicação centrada na pessoa na relação com os enfermeiros de família, em contexto comunitário.Questões de investigação1. Como percecionam os utentes a comunicação centrada na pessoa na interação com os enfermeiros de família, em contexto comunitário? 2. Que elementos da comunicação com os enfermeiros de família são valorizados pelos utentes como promotores de uma abordagem centrada na pessoa? 3. Que barreiras e facilitadores identificam os utentes na comunicação com os enfermeiros de família, em contexto comunitário?
O projeto não prevê o envolvimento direto do cidadão no processo de investigação, limitando-se à recolha de perceções de participantes através de entrevistas realizadas no âmbito do estudo.
Referências Bibliográficas: Eze, U. (2023). Patients' perceptions of medication counseling and education provided by pharmacists. 10.25259/AJPPS_2023_009 · Lau, E. (2019). Counseling interactions between patients living with persistent pain and pharmacists in Australia: Are we on the same page? · Naughton, C. A. (2018). Patient-Centered Communication. · Mathew, A., Yohannes, H., & Girmay, B. (2010). Changing role of pharmacists and their skills of communication: A study in Eritrea. · Soares, D. C. O. (2021). Literacia relacionada com medicamento: Tradução, validação e aplicação do questionário de RALPH [Dissertação de Mestrado, Universidade de Coimbra]. Estudo Geral. · Tadesse, Y. B. (2023). Pharmacists’ medication counseling practices and knowledge and satisfaction of patients with an outpatient hospital pharmacy service. 10.1177/00469580231219457 · Villako, P. (2012). Factors influencing purchase of and counselling about prescription and OTC medicines at community pharmacies in Tallinn, Estonia. · Braun, V., & Clarke, V. (2006). Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3(2), 77–101. · Braun, V., & Clarke, V. (2019). Reflecting on reflexive thematic analysis. Qualitative Research in Sport, Exercise and Health, 11(4), 589–597. · Creswell, J. W., & Creswell, J. D. (2018). Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches (5th ed.). SAGE. · Flick, U. (2009). An introduction to qualitative research (4th ed.). SAGE. · Carter, N., Bryant-Lukosius, D., DiCenso, A., Blythe, J., & Neville, A. J. (2014). The use of triangulation in qualitative research. Oncology Nursing Forum, 41(5), 545–547. · Finlay, L. (2002). “Outing” the researcher: The provenance, principles and practice of reflexivity. Qualitative Health Research, 12(4), 531–545. · Lincoln, Y. S., & Guba, E. G. (1985). Naturalistic Inquiry. Sage Publications. · Nowell, L. S., Norris, J. M., White, D. E., & Moules, N. J. (2017). Thematic analysis: Striving to meet the trustworthiness criteria. International Journal of Qualitative Methods, 16, 1–13. · Patton, M. Q. (1999). Enhancing the quality and credibility of qualitative analysis. Health Services Research, 34(5 Pt 2), 1189–1208. · World Medical Association. (2024). WMA Declaration of Helsinki – Ethical Principles for Medical Research Involving Human Participants (Revised October 2024). · Guba, L. &. (1985). Naturalistic inquiry (Sage Publications (ed.)). · Loureiro, L. M. de J. (2006). Adequaçao e rigor na investigaçao fenomenológica em enfermagem - crítica, estratégias e possibilidades. Referência, II série, 21–32.
08/03/2026
08/03/2027
Comunicação, relação e Humanização de Cuidados
Care Systems, Organization, Models, and Technology