A sustentabilidade ambiental nos cuidados de saúde tem adquirido crescente relevância devido ao elevado consumo de recursos, produção de resíduos e emissões associados à prestação de cuidados. As Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) constituem contextos particularmente exigentes, pela utilização contínua de tecnologia, medicamentos, equipamentos de proteção individual e dispositivos descartáveis. A dependência de produtos de uso único, embora associada a requisitos de segurança e controlo de infeção, contribui para um modelo linear de “produzir–usar–eliminar”, aumentando a produção de resíduos e a pressão sobre os sistemas de tratamento.
A composição dos resíduos das UCI evidencia oportunidades relevantes para estratégias de economia circular. McGain et al. (2009) verificaram que 57% dos resíduos gerais de uma UCI eram potencialmente recicláveis, sobretudo plásticos, cartão e papel, com reduzida contaminação por resíduos infeciosos. Posteriormente, Hunfeld et al. (2023), através de uma análise de fluxos de materiais numa UCI académica, identificaram uma entrada anual de 247 000 kg de materiais, dos quais cerca de 50 000 kg foram incinerados como resíduos hospitalares. Luvas não esterilizadas, batas de isolamento, resguardos, máscaras cirúrgicas e seringas, incluindo as respetivas embalagens, destacaram-se entre os principais hotspots ambientais.
Apesar deste potencial, a implementação de práticas sustentáveis permanece desigual. Num estudo envolvendo 51 UCI da Austrália e Nova Zelândia, Anstey et al. (2023) identificaram elevado consumo de artigos descartáveis e reduzida reciclagem efetiva no espaço do doente, embora 65% das instituições reportassem reciclagem de plástico. Estes resultados sugerem que a existência de circuitos de reciclagem não assegura, isoladamente, uma segregação eficaz, reforçando a importância de infraestruturas adequadas, formação, envolvimento dos profissionais e integração das práticas nos fluxos de trabalho.
A evidência recente demonstra ainda que a redução dos resíduos plásticos pode resultar de alterações relativamente simples na prática clínica. Schluep et al. (2024) prolongaram de quatro para sete dias o intervalo de substituição de sistemas de administração intravenosa e de monitorização invasiva, obtendo uma redução anual de 182 kg de resíduos e de 96 horas de trabalho de enfermagem, sem diferença na incidência de infeções da corrente sanguínea associadas a cateter.
Mais recentemente, Lucchini et al. (2026) compararam produtos reutilizáveis ou de menor geração de resíduos com alternativas descartáveis em seis procedimentos respiratórios numa UCI. Os autores estimaram que a adoção das alternativas permitiria reduzir 358,14 kg de resíduos plásticos por ano e evitar aproximadamente 1 039 kg de CO₂ equivalente associados à sua incineração. Estes dados reforçam o potencial da reutilização segura e da seleção criteriosa de dispositivos como componentes de uma estratégia de sustentabilidade em cuidados intensivos.
O conhecimento disponível aponta, assim, para uma evolução da simples gestão do resíduo para estratégias hierarquizadas de prevenção, redução, reutilização segura, segregação, reciclagem e valorização. Contudo, a evidência especificamente centrada nos plásticos de uso único em UCI permanece dispersa e assenta frequentemente em estudos locais, com heterogeneidade nas intervenções, indicadores e resultados avaliados. Neste contexto, o mapeamento sistemático das práticas existentes, dos seus resultados, barreiras e facilitadores é relevante para identificar lacunas de conhecimento e fundamentar futuras intervenções de sustentabilidade ambiental nas UCI.
Enquadramento: A crescente utilização de plásticos de uso único nos cuidados de saúde constitui um desafio para a sustentabilidade ambiental. Nas Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), é relevante identificar práticas que promovam uma gestão sustentável destes materiais e resíduos, incluindo redução, substituição, segregação, triagem, reciclagem, recuperação e valorização.
Objetivos: Mapear as práticas promotoras da sustentabilidade ambiental relacionadas com a gestão de resíduos plásticos de uso único em UCI, caracterizando os tipos de intervenção, contextos de implementação, intervenientes envolvidos, resultados, barreiras e facilitadores.
Metodologia: Será realizada uma scoping review segundo a metodologia do Joanna Briggs Institute (JBI) e reportada de acordo com a PRISMA-ScR. Serão considerados estudos quantitativos, qualitativos e de métodos mistos, estudos de implementação, documentos orientadores, normas, relatórios técnicos, teses e literatura cinzenta, sem limite temporal ou de idioma. O contexto incluirá UCI neonatais, pediátricas e de adultos.
Resultados esperados: Espera-se obter um mapeamento das práticas de gestão sustentável de plásticos de uso único em UCI, evidenciando características das intervenções, contextos, intervenientes, resultados, barreiras e facilitadores. Os resultados poderão apoiar melhorias e orientar futuras iniciativas de sustentabilidade ambiental em cuidados intensivos e na prática clínica.
Objetivo geral: Mapear as práticas promotoras da sustentabilidade ambiental relacionadas com a gestão de resíduos plásticos de uso único em Unidades de Cuidados Intensivos.
Objetivos específicos:
Identificar práticas de prevenção, redução, substituição, segregação, triagem, reciclagem, recuperação, valorização e reutilização segura de plásticos de uso único em Unidades de Cuidados Intensivos.
Caracterizar as práticas identificadas quanto ao tipo de intervenção, contexto de implementação e intervenientes envolvidos.
Descrever os resultados associados à implementação dessas práticas.
Identificar barreiras e facilitadores à adoção de práticas sustentáveis na gestão de plásticos de uso único em UCI.
A inovação desta investigação reside no mapeamento sistematizado das práticas de sustentabilidade ambiental aplicadas à gestão de plásticos de uso único em Unidades de Cuidados Intensivos, um contexto de elevada complexidade assistencial e consumo de recursos. A identificação de intervenções, resultados, barreiras e facilitadores permitirá reunir conhecimento atualmente disperso e evidenciar lacunas de investigação.
Espera-se que os resultados apoiem profissionais e instituições na definição de práticas mais sustentáveis, promovendo a redução de resíduos, a utilização mais eficiente de recursos e a melhoria dos processos de gestão ambiental em UCI. Indiretamente, poderá contribuir para cuidados de saúde ambientalmente mais responsáveis, com benefícios para as organizações, para a sociedade e para os cidadãos.
Anstey, M. H., Trent, L., Bhonagiri, D., Hammond, N. E., Knowles, S., & McGain, F. (2023). How much do we throw away in the intensive care unit? An observational point prevalence study of Australian and New Zealand ICUs. Critical Care and Resuscitation, 25(2), 78–83. doi:10.1016/j.ccrj.2023.05.004.
Hunfeld, N., Diehl, J. C., Timmermann, M., van Exter, P., Bouwens, J., Browne-Wilkinson, S., de Planque, N., & Gommers, D. (2023). Circular material flow in the intensive care unit—Environmental effects and identification of hotspots. Intensive Care Medicine, 49(1), 65–74. doi:10.1007/s00134-022-06940-6.
Lucchini, A., Nava, G., Villa, M., Cesana, M., Citterio, S., Ausili, D., Giani, M., Rezoagli, E., & Bambi, S. (2026). Single-use vs. reusable products for six respiratory procedures in an intensive care unit: A retrospective evaluation of plastic waste implications. Intensive & Critical Care Nursing, 93, 104327. doi:10.1016/j.iccn.2025.104327.
McGain, F., Story, D., & Hendel, S. (2009). An audit of intensive care unit recyclable waste. Anaesthesia, 64(12), 1299–1302. doi:10.1111/j.1365-2044.2009.06102.x.
Schluep, M., Minheere, M., Baus, M., Machielse, S., Donkers, A., & Vroman, H. (2024). Reducing plastic waste in intensive care from longer use of intravenous administration and invasive monitoring sets: A before-and-after study. Journal of Critical Care, 84, 154900. doi:10.1016/j.jcrc.2024.154900.
29/04/2026
31/07/2027
Práticas profissionais e ambientes de cuidados seguros
Care Systems, Organization, Models, and Technology