Uma má notícia pode ser definida como toda a informação que envolva uma mudança drástica e negativa na vida de uma pessoa, bem como a perspetiva do futuro, destruindo esperanças e sonhos (1,2,3).
A comunicação de más notícias é uma das responsabilidades que se inclui no quotidiano dos profissionais de saúde, no entanto continua a ser apontada como uma das competências mais difícil de ser praticada, e um frequente objeto de estudo em diversos contextos profissionais (4). Deste modo, a notícia é penosa para os familiares (que a experienciam), mas também o é para o profissional de saúde (que observa quem experiencia), dado o sentimento de impotência para ajudar e a sensação de fracasso (5,6,7).
A morte inesperada surge como acontecimento súbito e para o qual não existe preparação prévia, exigindo das equipas de saúde, competência na gestão do processo de morrer e do luto familiar. A experiência de perda e de luto de um familiar é um momento de crise de desenvolvimento para os elementos de uma família, daí que após a morte de um ente querido, a família deveria tornar-se no centro dos cuidados, uma vez que é uma das experiências mais dolorosas do ser humano (6).
Comunicar uma morte, num primeiro contacto com as famílias, num contexto em que não houve possibilidade de criar uma relação interpessoal, como acontece no ambiente extra-hospitalar, é um dos maiores desafios comunicacionais dos profissionais de saúde (1,8).
Como defendem vários autores (9,10,11), a comunicação não deve ser um ato improvisado, os profissionais devem possuir e desenvolver conhecimentos sobre a abordagem comunicacional mais adequada à situação. Esses autores referem que uma comunicação assertiva diminui a ansiedade e conflitos de emoções, o que faz dela uma ferramenta terapêutica importante para a relação profissional /família.
Estudos realizados em contexto hospitalar, vieram salientar os benefícios da formação no âmbito da comunicação de más notícias, a qual também ajudou a melhorar e aumentar a confiança dos profissionais para debaterem questões sobre a morte, comunicação da morte e cuidados em fim de vida (9,10, 12).
É neste contexto que surgem os protocolos, como guias de orientação fundamentais, pois descrevem considerações importantes, no sentido de aliviar os sentimentos mencionados anteriormente, para a família que recebe a notícia, como para os profissionais de saúde que a transmitem (13).
Vários protocolos foram criados no sentido de apoiar os profissionais na comunicação de más notícias, mas nenhum responde às necessidades reveladas pelas famílias das vítimas de morte súbita (1,14), com orientações sobre como dar más notícias quando existem várias pessoas presentes (15), num ambiente caótico e violento como acontece no meio extra-hospitalar (1,16).
Neste sentido é premente a necessidade de se estabelecer um protocolo para a comunicação de más notícias, num contexto especifico como é o da emergência extra-hospitalar, em que o esforço e a preparação dos profissionais se tornam uma exigência para minimizar o impacto negativo de toda a experiência vivenciada pelos presentes.
A comunicação de más notícias, em especial nas situações de morte inesperada, é uma das tarefas mais difícil para os profissionais. É importante estar ciente de que as palavras utilizadas e a forma como é efetuada a transmissão da perda, pode marcar a família para sempre, influenciando a forma como será feita a gestão do luto.
A comunicação de morte não deve por isso ser um ato improvisado e o profissional deve ter conhecimentos sobre a abordagem comunicacional mais adequada à situação.
No ambiente extra-hospitalar, caótico e muitas vezes violento, não foram encontrados programas ou protocolos com o objetivo de guiar os profissionais a realizarem essa comunicação. O objetivo desta investigação vai assim de encontro a essa lacuna identificada pela autora e partilhada por muitos profissionais do serviço de emergência extra-hospitalar (1).
A questão de partida do presente estudo é: como deve ser realizada a comunicação de más notícias, em situações de morte súbita, pela equipa de emergência no meio extra-hospitalar?
Assim, a finalidade do presente estudo é contribuir para a melhoria da comunicação de más notícias, em especial nas situações de morte inesperada, através da implementação de um programa direcionado para o contexto de emergência extra-hospitalar.
Os objetivos específicos delineados são:
1 – Mapear o estado da arte sobre as estratégias utilizadas na transmissão de más notícias em contexto de morte súbita.
2 – Compreender as vivências dos familiares das vítimas de morte súbita durante o processo de comunicação de más notícias, no ambiente extra-hospitalar.
3 – Compreender as vivências dos profissionais, durante o processo de comunicação de más notícias, no ambiente extra-hospitalar.
4 – Construir e validar um programa de gestão para a comunicação de más notícias adaptado ao contexto de emergência extra-hospitalar.
Tratando-se do primeiro programa para a gestão da comunicação de más notícias em emergência extra-hospitalar, espera-se que contribua para que os profissionais da área de emergência extra-hospitalar, se sintam mais preparados e confiantes, para enfrentarem o momento da comunicação da má notícia, sem tendência para o evitamento dessa responsabilidade que se defende também ser foco dos cuidados de enfermagem, e sem a angústia/nervosismo a que está normalmente associada. Espera-se também que na comunicação da má notícia se tenha em consideração as necessidades da família que tem de lidar com esse momento que pode mudar a sua vida para sempre, tornando-o um pouco menos doloroso, sentindo-se mais apoiada e compreendida pela equipa de socorro.
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Comunicação e Relação Interpessoal nos Cuidados de Saúde
Care Systems, Organization, Models, and Technology