Competências Emocionais do Estudante de Licenciatura em Enfermagem: Desenvolvimento de um Programa de Capacitação

A formação em Enfermagem exige mais do que a aquisição de conhecimentos técnico-científicos e competências procedimentais. Os estudantes contactam precocemente com sofrimento, vulnerabilidade, morte, comunicação difícil e tomada de decisão, em contextos académicos e clínicos de elevada exigência relacional, emocional e ética. A preparação para estes contextos requer autoconsciência, regulação emocional, empatia, comunicação e colaboração, com repercussões no bem-estar, na aprendizagem, na relação terapêutica e na futura prática profissional (Berg et al., 2017; Larsen & White, 2024). Contudo, muitos percursos formativos continuam a privilegiar conteúdos cognitivos e competências técnicas, não sendo claro como as competências emocionais são intencionalmente ensinadas, desenvolvidas e avaliadas.

A literatura apresenta acentuada diversidade conceptual e utiliza, por vezes de forma sobreposta, expressões como inteligência emocional, competências emocionais e socioemocionais, competências relacionais, soft skills, non-technical skills, empatia, compaixão, humanismo e comportamento de cuidar. Embora não sejam equivalentes, estes conceitos convergem em finalidades como compreender e gerir emoções, comunicar, reconhecer a perspetiva do outro, colaborar e tomar decisões responsáveis. Salovey e Mayer (1990) definiram a inteligência emocional como a capacidade de monitorizar, discriminar e utilizar informação emocional para orientar o pensamento e a ação. Gross (1998) conceptualizou a regulação emocional como o processo pelo qual a pessoa influencia as emoções que experiencia e expressa. Esta pluralidade exige que qualquer programa explicite o constructo adotado e as competências-alvo.

A investigação sobre aprendizagem socioemocional sustenta que estas competências podem ser desenvolvidas através de intervenções intencionais e estruturadas. As meta-análises de Durlak et al. (2011) e Taylor et al. (2017) identificaram efeitos favoráveis nas competências sociais e emocionais, atitudes, comportamento, desempenho académico e bem-estar. Porém, estes resultados provêm sobretudo de contextos escolares e não podem ser transferidos diretamente para a formação superior em Enfermagem. Neste domínio, a inteligência emocional e a resiliência parecem apoiar a resposta às exigências da aprendizagem clínica, mas a evidência não permite concluir consistentemente que a inteligência emocional, isoladamente, melhore a comunicação, o sucesso académico ou a retenção (Cleary et al., 2018).

Na educação em saúde têm sido descritas intervenções curriculares e extracurriculares, com recurso a diversas metodologias, incluindo simulação, role-play, reflexão orientada, feedback entre pares e aprendizagem experiencial. Em Enfermagem, Napolitano et al. (2024) associaram a simulação a ganhos em competências emocionais, compaixão, autoconsciência, autoeficácia, empatia, pensamento crítico e trabalho em equipa. Widad e Abdellah (2022) identificaram também programas educativos dirigidos à comunicação, colaboração, confiança e consciência situacional. Intervenções centradas numa competência, como a empatia, a compaixão ou a comunicação terapêutica, podem fornecer componentes úteis. Porém, a agregação destas dimensões sob designações amplas pode originar intervenções pouco delimitadas e dificultar a comparação dos resultados.

Apesar do número crescente de estudos e revisões, o conhecimento permanece fragmentado. Algumas sínteses incidem numa competência particular; outras centram-se numa estratégia pedagógica, profissão ou resultado. Persistem lacunas na descrição dos fundamentos teóricos, competências-alvo, conteúdos, duração, modalidade, recursos, implementação, avaliação e manutenção dos efeitos. A heterogeneidade conceptual e metodológica limita a identificação dos componentes transferíveis para a formação inicial em Enfermagem e não permite estabelecer qual a configuração de intervenção mais adequada.

Justifica-se, por isso, mapear sistematicamente os programas, intervenções e estratégias existentes, caracterizando referenciais, componentes, métodos pedagógicos, contextos, avaliação e resultados, e integrar esse conhecimento com as perspetivas de estudantes e professores. Esta articulação permitirá sustentar o desenvolvimento de um programa de capacitação teoricamente fundamentado, pedagogicamente coerente e ajustado à Licenciatura em Enfermagem, cuja relevância, estrutura e conteúdo serão posteriormente apreciados por consenso de peritos.

A formação em Enfermagem expõe os estudantes a exigências académicas, clínicas e relacionais que requerem a mobilização de competências emocionais. Estas competências influenciam o bem-estar, a aprendizagem, a relação terapêutica e a preparação para o exercício profissional, mas a sua integração nos percursos formativos permanece, em muitos contextos, ausente ou pouco sistematizada. Este projeto tem como finalidade desenvolver um programa de capacitação em competências emocionais para estudantes da Licenciatura em Enfermagem. Enquadrado nas orientações do Medical Research Council para o desenvolvimento de intervenções complexas, compreende quatro etapas articuladas: realização de uma scoping review para mapear programas e intervenções, componentes, estratégias pedagógicas e resultados; estudo qualitativo das perspetivas e experiências de estudantes e professores; construção do programa com base na evidência e nos contributos dos participantes; e validação de conteúdo do programa, por consenso de peritos, quanto à sua relevância, estrutura e conteúdo. Pretende-se obter um programa teoricamente fundamentado e ajustado ao contexto formativo, cuja viabilidade e eficácia possam ser avaliadas posteriormente, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes e para a qualidade dos futuros cuidados de Enfermagem.

Mapear sistematicamente os programas, intervenções e estratégias existentes, caracterizando referenciais, componentes, métodos pedagógicos, contextos, avaliação e resultados, e integrar esse conhecimento com as perspetivas de estudantes e professores. Esta articulação permitirá sustentar o desenvolvimento de um programa de capacitação teoricamente fundamentado, pedagogicamente coerente e ajustado à Licenciatura em Enfermagem, cuja relevância, estrutura e conteúdo serão posteriormente apreciados por consenso de peritos.

O envolvimento do cidadão será concretizado através da participação de estudantes da Licenciatura em Enfermagem enquanto cidadãos e utilizadores finais do programa a desenvolver. Numa abordagem consultiva, serão auscultadas as suas experiências, necessidades, prioridades e perspetivas relativamente às exigências emocionais da formação e às competências que consideram necessário desenvolver. Para além da participação no estudo qualitativo, representantes dos estudantes serão convidados a apreciar as prioridades identificadas e a clareza, pertinência e adequação da proposta preliminar do programa. Os contributos recolhidos serão documentados e considerados na definição das competências-alvo, conteúdos, estratégias pedagógicas e condições de implementação. Esta participação permitirá aproximar o programa das necessidades do público-alvo, reforçar a sua adequação ao contexto formativo e identificar potenciais barreiras e facilitadores à sua futura implementação. O projeto poderá ainda contribuir para o bem-estar e a literacia emocional dos estudantes e para a sua preparação para os desafios relacionais e emocionais da formação e do exercício profissional.

  • Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra/UICISA:E
  • Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal
  • Batt-Rawden, S. A., Chisolm, M. S., Anton, B., & Flickinger, T. E. (2013). Teaching empathy to medical students: An updated, systematic review. Academic Medicine, 88(8), 1171–1177. https://doi.org/10.1097/ACM.0b013e318299f3e3

    Berg, J., Osher, D., Same, M. R., Nolan, E., Benson, D., & Jacobs, N. (2017). Identifying, defining, and measuring social and emotional competencies: Final report. American Institutes for Research.

    Cleary, M., Visentin, D., West, S., Lopez, V., & Kornhaber, R. (2018). Promoting emotional intelligence and resilience in undergraduate nursing students: An integrative review. Nurse Education Today, 68, 112–120. https://doi.org/10.1016/j.nedt.2018.05.018

    Durlak, J. A., Weissberg, R. P., Dymnicki, A. B., Taylor, R. D., & Schellinger, K. B. (2011). The impact of enhancing students’ social and emotional learning: A meta-analysis of school-based universal interventions. Child Development, 82(1), 405–432. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2010.01564.x

    Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, 2(3), 271–299. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.3.271

    Kelm, Z., Womer, J., Walter, J. K., & Feudtner, C. (2014). Interventions to cultivate physician empathy: A systematic review. BMC Medical Education, 14, Article 219. https://doi.org/10.1186/1472-6920-14-219

    Larsen, G., & White, B. A. (2024). Educational interventions to improve emotional intelligence of health professions students. Baylor University Medical Center Proceedings, 38(1), 106–109. https://doi.org/10.1080/08998280.2024.2406177

    Ma, J., Chui, P., Chong, M. C., Yuan, J., Zhu, Y., Liu, L., & Sun, Z. (2025). Effect of structured community-based older people education program on empathy, emotional intelligence, and caring behavior among nursing students. Frontiers in Medicine, 12, Article 1651669. https://doi.org/10.3389/fmed.2025.1651669

    Mayer, J. D., Salovey, P., & Caruso, D. R. (2008). Emotional intelligence: New ability or eclectic traits? American Psychologist, 63(6), 503–517. https://doi.org/10.1037/0003-066X.63.6.503

    McNally, G., Haque, E., Sharp, S., & Thampy, H. (2023). Teaching empathy to medical students. The Clinical Teacher, 20(1), Article e13557. https://doi.org/10.1111/tct.13557

    Menezes, P., Guraya, S. Y., & Guraya, S. S. (2021). A systematic review of educational interventions and their impact on empathy and compassion of undergraduate medical students. Frontiers in Medicine, 8, Article 758377. https://doi.org/10.3389/fmed.2021.758377

    Napolitano, F., Calzolari, M., Di Pietro, S., Pagnucci, N., Zanini, M., Catania, G., Aleo, G., Gomes, L., Sasso, L., & Bagnasco, A. (2024). Pedagogical strategies to improve emotional competencies in nursing students: A systematic review. Nurse Education Today, 142, Article 106337. https://doi.org/10.1016/j.nedt.2024.106337

    Peters, M. D. J., Marnie, C., Tricco, A. C., Pollock, D., Munn, Z., Alexander, L., McInerney, P., Godfrey, C. M., & Khalil, H. (2020). Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews. JBI Evidence Synthesis, 18(10), 2119–2126. https://doi.org/10.11124/JBIES-20-00167

    Pucer, P., Martinović, K., Karnjuš, I., & Renko, J. (2025). Development and improvement of non-technical skills in interprofessional healthcare teams through simulation-based experiences: A systematic review. Clinical Simulation in Nursing, 102, Article 101726. https://doi.org/10.1016/j.ecns.2025.101726

    Salovey, P., & Mayer, J. D. (1990). Emotional intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185–211. https://doi.org/10.2190/DUGG-P24E-52WK-6CDG

    Sinclair, S., Kondejewski, J., Jaggi, P., Dennett, L., Roze des Ordons, A. L., & Hack, T. F. (2021). What is the state of compassion education? A systematic review of compassion training in health care. Academic Medicine, 96(7), 1057–1070. https://doi.org/10.1097/ACM.0000000000004114

    Skivington, K., Matthews, L., Simpson, S. A., Craig, P., Baird, J., Blazeby, J. M., Boyd, K. A., Craig, N., French, D. P., McIntosh, E., Petticrew, M., Rycroft-Malone, J., White, M., & Moore, L. (2021). A new framework for developing and evaluating complex interventions: Update of Medical Research Council guidance. BMJ, 374, Article n2061. https://doi.org/10.1136/bmj.n2061

    Taylor, R. D., Oberle, E., Durlak, J. A., & Weissberg, R. P. (2017). Promoting positive youth development through school-based social and emotional learning interventions: A meta-analysis of follow-up effects. Child Development, 88(4), 1156–1171. https://doi.org/10.1111/cdev.12864

    Wang, H., Habil, H., & Ibrahim, N. A. (2026). Empathy training in health professions education: A systematic review. International Medical Education, 5(2), Article 40. https://doi.org/10.3390/ime5020040

    Widad, A., & Abdellah, G. (2022). Strategies used to teach soft skills in undergraduate nursing education: A scoping review. Journal of Professional Nursing, 42, 209–218. https://doi.org/10.1016/j.profnurs.2022.07.010

    Informação do projeto

    • Data de Início

      25/07/2025

    • Data de conclusão

      31/08/2028

    • Projeto Estruturante

      Laboratório de Ética em Enfermagem

    • Linha Temática

      Education and development of the discipline

    • Target population
      • Estudante de Licenciatura em Enfermagem
    • Palavras-chave
      • Competências emocionais
      • Estudantes de Enfermagem
      • Ensino superior
      • Programa de capacitação
      • Intervenções complexas
    • Áreas prioritárias
      • Formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
      • Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
      • Promover o crescimento económico inclusivo e sustentável, o emprego pleno e produtivo e o trabalho digno para todos
    • Equipa de Projeto
      • Bruno André Magalhães Ferreira IR
      • Rosa Cristina Correia Lopes OR
      • Lucília Rosa Mateus Nunes OR
      • Sandra Maria de Jesus Rito OR