Empoderamento Educacional dos Estudantes de Enfermagem em Estomaterapia: EstomaEduCare

A ostomia de eliminação representa um procedimento cirúrgico com crescente prevalência e impacto multidimensional na vida da pessoa e da sua família. Estima-se que existam aproximadamente 1 milhão de pessoas ostomizadas nos Estados Unidos (Claessens et al., 2015; Maydick-Youngberg, 2017; Burgess-Stocks et al., 2022), outro milhão na China e cerca de 700.000 na Europa (Claessens et al., 2015). Em Portugal, um estudo da Convatec (2023), em parceria com o Centro de Estudos e Avaliação em Saúde da Associação Nacional de Farmácias, estimou a existência de cerca de 22.000 pessoas com ostomia, sendo 90% de eliminação (urostomia, colostomia ou ileostomia), maioritariamente homens (61,6%) com idade média de 69,3 anos. Este cenário reforça a necessidade de formação especializada, uma vez que a adaptação à ostomia envolve desafios fisiológicos, psicológicos e sociais que comprometem a qualidade de vida da pessoa e da sua família (Sousa et al., 2023). Estudos revelam que as pessoas ostomizadas enfrentam alterações profundas na imagem corporal, na sexualidade, nas relações sociais e na autoperceção, experienciando sentimentos de vulnerabilidade, dependência e perda de controlo (Vasconcelos & Silva, 2020; Zewude et al., 2021). O enfermeiro estomaterapeuta, pela natureza holística da sua intervenção, assume um papel central na reabilitação e na promoção do autocuidado, planeando, implementando e avaliando cuidados que abrangem desde o pré-operatório até ao acompanhamento domiciliário (Ordem dos Enfermeiros, 2019; Santos, 2022). Contudo, evidenciam-se lacunas significativas no ensino e na formação em estomaterapia, tanto ao nível da licenciatura como da especialização, refletindo a escassez de recursos pedagógicos inovadores e de estratégias integradoras (Monteiro et al., 2019a; Campos et al., 2021; Sousa et al., 2023). A formação tradicional, assente em métodos expositivos e demonstrações práticas, não favorece o desenvolvimento de competências clínicas, críticas e relacionais complexas (Monteiro et al., 2019b). A literatura aponta que metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), estimulam a motivação, a autonomia e a capacidade de resolução de problemas, fortalecendo a integração entre teoria e prática (Monteiro et al., 2019a; Vural et al., 2021). Todavia, a sua aplicação à estomaterapia permanece limitada, em parte pela ausência de materiais digitais específicos e de simulações clínicas que representem a realidade da pessoa com ostomia. O projeto EstomaEduCare propõe-se colmatar essa lacuna, articulando ciência, pedagogia e tecnologia. Alicerçado na Teoria das Transições de Afaf Meleis, reconhece a complexidade da experiência da pessoa e da família com ostomia e o papel do enfermeiro como facilitador das transições saúde-doença. Esta teoria oferece uma perspetiva ampliada que ultrapassa a dimensão técnica e enfatiza o cuidado relacional, emocional, espiritual e cultural. Em convergência, a aprendizagem centrada no estudante e os princípios da multimodalidade sustentam uma abordagem construtivista, ativa e participativa, promovendo o protagonismo e a autonomia do estudante de enfermagem. Recursos digitais, como vídeos, estudos de caso e quizzes, aumentam o envolvimento e facilitam a consolidação do conhecimento (Gause et al., 2022; Oliveira et al., 2024). As diretrizes internacionais da Wound, Ostomy and Continence Nurses Society (WOCN, 2021) e do European Council of Enterostomal Therapy (ECET) reforçam a relevância de estratégias tecnológicas, simulação clínica e aprendizagem experiencial na formação em estomaterapia. Apesar disso, a integração de ferramentas digitais no ensino da enfermagem em Portugal ainda é incipiente, o que limita o acesso a experiências de aprendizagem imersivas. O EstomaEduCare distingue-se pela sua originalidade ao propor uma aplicação digital sustentada em evidência científica e em princípios pedagógicos contemporâneos, promovendo a literacia digital, a equidade no acesso ao conhecimento e a modernização curricular. A revisão da literatura demonstra, assim, a pertinência e o caráter inovador desta proposta, ao conjugar a perspetiva clínica, tecnológica e educativa na formação de enfermeiros mais competentes, reflexivos e com uma abordagem centrada na pessoa (e sua família).

O projeto EstomaEduCare propõe-se transformar o ensino de estomaterapia na formação em Enfermagem através do desenvolvimento de uma aplicação digital inovadora que integra teoria, prática e evidência científica. Inserido na área da Educação em Enfermagem e da Tecnologia Educacional em Saúde, o estudo visa identificar lacunas no ensino teórico-prático e promover o empoderamento educacional dos estudantes.

Tem como objetivos: (1) traduzir, adaptar e validar um instrumento de avaliação do conhecimento sobre ostomias; (2) mapear, por meio de uma scoping review JBI, as práticas pedagógicas e tecnologias educacionais existentes; (3) conduzir um estudo observacional misto para identificar necessidades formativas e preferências de aprendizagem e (4) desenvolver uma solução educacional digital.

A aplicação digital a desenvolver incluirá módulos educativos, estudos de caso, vídeos tutoriais, quizzes e simulações interativas. Espera-se que o EstomaEduCare contribua para a modernização do ensino, o reforço das competências técnicas e relacionais e a melhoria da qualidade dos cuidados à pessoa com ostomia, promovendo uma formação académica inovadora, inclusiva e humanizada.

1. Identificar lacunas e necessidades formativas no ensino da estomaterapia em cursos de licenciatura em enfermagem, em Portugal.2. Mapear as evidências científicas sobre o ensino de estomaterapia e tecnologias educacionais através de uma scoping review.3. Traduzir, adaptar culturalmente e validar um instrumento de avaliação do conhecimento sobre ostomias de eliminação intestinal para a estudantes de Licenciatura em Enfermagem.4. Desenvolver e implementar a aplicação digital EstomaEduCare, integrando conteúdos teóricos e práticos baseados em evidências científicas.5. Disseminar os resultados e avaliar o impacto educativo e social do projeto.

O projeto EstomaEduCare integra o cidadão enquanto participante ativo no processo de investigação, assegurando que o desenvolvimento da aplicação digital responde às necessidades reais dos seus futuros utilizadores. O envolvimento ocorrerá através da participação de estudantes de enfermagem, docentes e enfermeiros com competência acrescida em estomaterapia nas diferentes fases do projeto, nomeadamente na identificação de necessidades formativas, validação de conteúdos e avaliação da usabilidade da aplicação. Adicionalmente, sempre que possível, serão auscultadas pessoas com ostomia e/ou representantes de associações de doentes, de forma a incorporar a perspetiva da pessoa na construção de conteúdos relacionados com o autocuidado, adaptação à ostomia, comunicação e qualidade de vida. Esta abordagem de co-criação permitirá desenvolver uma solução educativa mais relevante, centrada na pessoa, cientificamente robusta e socialmente útil, promovendo a literacia em saúde, a humanização dos cuidados e a transferência efetiva do conhecimento para a prática clínica.

  • Universidade do Algarve
  • Unidade Local de Saúde do Algarve
  • Associação Portuguesa de Enfermeiros de Cuidados em Estomaterapia
  • Brito, L. E.O., Silva, R. K. S., Rocha, G. A., Galiza, F. T., Leal, J. D. V., & Pereira, F. G. F. (2018). Papel do enfermeiro na assistência às pessoas estomizadas intestinais: revisão integrativa. Rev Enferm UFPI, 7(4):56-60. https://doi.org/10.26694/2238-7234.7456-60

    Burgess-Stocks, J., Gleba, J., Lawrence, K., & Mueller, S. (2022). Ostomy and Continent Diversion Patient Bill of Rights: Research Validation of Standards of Care. Journal of wound, ostomy, and continence nursing: official publication of The Wound, Ostomy and Continence Nurses Society, 49(3), 251–260. https://doi.org/10.1097/WON.0000000000000876

    Campos, M. O. B., Monteiro, A. K. C., Mendes, I. A. C., Avelino, F. V. S. D., Andrade, J. X., & Andrade, E. M. L. R. (2021). Students’ knowledge on intestinal ostomies before and after an online educational platform intervention. Rev Bras Enferm, 74(5):e20201313. https://doi. org/10.1590/0034-7167-2020-1313

    Carvalho, B.L., Silva, A. N. B., Rios, D. R. S., Lima, F. E. S., Santos, F. K. V., Santana, F. L. F., Costa, M. P. S., Sousa, M. B. V., Coelho, M. M., Silva, M. C. A., Veloso, N. F., Ferreira, S. D. M., Silva, S. P., Pereira, S. M., & Ferreira, K. D. P. (2019). Assistência de enfermagem a pacientes com estoma intestinal. Rev Eletr Acervo Saúde, (24):e604. https://doi.org/10.25248/reas.e604.2019

    Claessens, I., Probert, R., Tielemans, C., Steen, A., Nilsson, C., Andersen, B. D., & Størling, Z. M. (2015). The Ostomy Life Study: the everyday challenges faced by people living with a stoma in a snapshot. Gastrointestinal Nursing, 13(5), 18-25. https://doi.org/10.12968/gasn.2015.13.5.18

    Convatec em parceira com Centro de Estudos e Avaliação em Saúde da Associação Nacional de Farmácias. (2023). Estudo inovador revela dados importantes sobre portugueses com ostomia. Disponível em: https://www.convatec.pt/blog/archive/estudo-inovador-revela-dados-importantes-sobre-portugueses-com-ostomia/

    Folguera-Arnau, M., et al. (2020). Implementation of best practice guidelines for ostomy care. Enferm Clin.

    Lee, B. O., Liang, H. F., Chu, T. P., & Hung, C. C. (2019). Effects of simulation-based learning on nursing student competences. Nurse Education in Practice, 41, 102646.

    Li, X., Yuan, Q., Geng, L., et al. (2022). Quality Assessment of the Clinical Practice Guidelines of Ostomy Care. Frontiers in Public Health, 10, 856325.

    Maydick-Youngberg D. (2017). A Descriptive Study to Explore the Effect of Peristomal Skin Complications on Quality of Life of Adults With a Permanent Ostomy. Ostomy/wound management, 63(5), 10–23.

    Monteiro, A. K. C., Mendes, I. A. C., Pereira, M. C. C., Gouveia, M. T. O., Andrade, J. X., & Andrade, E. M. L.R. (2019a). Contribution of permanent semi inperson education on the knowledge of nurses on intestinal elimination stomas. Rev Min Enferm, 23:e-1177. https://doi. org/10.5935/1415-2762.20190025

    Monteiro, A. K. D. C., Campos, M. D. O. B., Andrade, J. X., & Andrade, E. M. L. R. (2019b). Construção e Validação de Instrumento para Avaliação do Conhecimento sobre Estomias Intestinais de Eliminação. Enfermagem em Foco 10. https://doi.org/10.21675/2357-707x.2019.v10.n3.1890

    Neves, M. S. (2022). Importância das plataformas de e-learning na formação contínua dos enfermeiros. Disponível em: https://spgsaude.pt/spgsweb/importancia-das-plataformas-de-e-learning-na-formacao-continua-dos-enfermeiros/

    Oliveira, L. F. de, Alvarez, A. G., & Couto Carvalho Barra, D. (2024). Potencialidades e desafios da simulação virtual na perspectiva do ensino em saúde e enfermagem: revisão integrativa. Revista Brasileira De Iniciação Científica, e024004. Recuperado de https://periodicoscientificos.itp.ifsp.edu.br/index.php/rbic/article/view/842

    Saho, M., Lomanto, G. A., Salviano, I. C. B., Reis, E.S., Anjos, K. F., & Rosa, D. O. S. (2021). Socio-demographic and academic characteristics of nursing students in professional training. J Contemp Nurs, 10(2):280-8. https://doi.org/10.17267/2317-3378rec.v10i2.3892

    Santos K.F. (2022) Cuidados prestados pelo enfermeiro na assistência ao paciente com estomia intestinal: evidências na literatura. R Pesq Cuid Fundam, 14:e11934. https://doi.org/10.9789/2175-5361.rpcfo.v14.11934

    Sousa, S. S., Araújo Filho, A. C. A., Monteiro, A. K. C., Rocha, P. O. S., Silva, Y. B., Silva, I. M.L., & Bezerra, S. M. G. (2023). Conhecimento de estudantes de enfermagem sobre estomias intestinais de eliminação. ESTIMA, Braz. J. Enterostomal Ther, 21: e1358. https://doi.org/10.30886/estima.v21.1358_PT

    Vural, F., Edeer, A. D., Yasak, K., Kaplan, A., Ozbayir, T., & Cakir, S. K. (2021). How were experiences of stoma for nursing students? Turk J Colorectal Dis, 31:109-15. https://doi.org/10.4274/tjcd.galenos.2020.2019-9-3

    Wound, Ostomy, and Continence Nurses Society [WOCN]. (2021). Guidelines for Ostomy Care. Disponível em https://www.wocn.org/

    Zewude, W. C., Derese, T., Suga, Y., Teklewold, B. (2021). Quality of life in patients living with stoma. Ethiop J Health Sci, 31(5):993-1000. https://doi.org/10.4314/ejhs.v31i5.11

    Informação do projeto

    • Data de Início

      02/09/2026

    • Data de conclusão

      02/09/2029

    • Projeto Estruturante

      Formação e desenvolvimento pessoal e profissional dos enfermeiros e dos estudantes do ensino superior de enfermagem

    • Linha Temática

      Education and development of the discipline

    • Target population
      • Estudantes de Licenciatura em Enfermagem em Portugal
    • Palavras-chave
      • Estomaterapia
      • Ensino de Enfermagem
      • Aplicação Digital
      • Aprendizagem Ativa
      • Tecnologia Educacional
    • Áreas prioritárias
      • Formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos
    • Equipa de Projeto
      • Claudia Jorge de Sousa Oliveira IR
      • Filomena Adelaide Pereira Sabino de Matos OR
      • Tânia Filipa Cabrita Xavier OR
      • Emília Isabel Martins Teixeira da Costa OR
      • Ricardo Emanuel Sousa Mestre
      • Sara Salvador Luz