O envelhecimento populacional é uma das transformações demográficas mais profundas do século XXI. A OMS (2021) estima que a população com 60 ou mais anos ultrapasse os dois mil milhões em 2050. Portugal figura entre os países mais envelhecidos da União Europeia, com um índice de envelhecimento superior a 180 e uma projeção de aumento da população com 65 ou mais anos de 23% em 2021 para mais de 35% em 2050 (Lopes et al., 2021).
Embora o envelhecimento seja inevitável, o declínio físico e cognitivo não o é (OMS, 2015). A evidência mostra que estes declínios são fortemente influenciados por fatores comportamentais, sociais e ambientais modificáveis (Mendes et al., 2022). A fragilidade e o défice cognitivo ligeiro (DCL) constituem estados de transição entre o envelhecimento saudável e o patológico, nos quais a intervenção atempada pode mitigar a perda funcional e atrasar ou prevenir a demência (Barbosa et al., 2021). À medida que a dependência aumenta, cresce o risco de institucionalização e a pressão sobre os sistemas de saúde e sociais (Alves et al., 2020).
Evitar a institucionalização desnecessária tornou-se um imperativo não apenas económico, mas também ético e social. Envelhecer em casa preserva a autonomia, a identidade social e a ligação intergeracional, alinhando-se com as preferências da maioria das pessoas idosas (Lopes et al., 2021). Contudo, os serviços comunitários permanecem fragmentados, sobretudo no apoio ao declínio cognitivo, e a continuidade dos cuidados é sustentada principalmente por cuidadores informais, responsáveis pela maior parte da assistência nas atividades diárias, pelo suporte emocional e pela gestão da saúde (Alves et al., 2020). Estes cuidadores apresentam prevalência elevada de ansiedade, depressão e exaustão, com diminuição da qualidade de vida. Programas que reforçam a competência e a autoeficácia do cuidador, proporcionando atividades partilhadas significativas, reduzem o stress e melhoram os resultados de ambos os membros da díade (Saragih et al., 2022; Xu et al., 2023).
A investigação evidencia a interdependência entre funcionamento cognitivo e físico, na medida em que o declínio cognitivo e a fragilidade coocorrem e reforçam-se mutuamente (Mendes et al., 2022; Barbosa et al., 2021). As intervenções multidomínio que combinam estimulação cognitiva e atividade física estruturada ganharam assim protagonismo. O exercício melhora a mobilidade, a força muscular e o estado afetivo, enquanto os programas cognitivos atuam sobre a memória, a atenção e a função executiva, com efeitos sinérgicos quando combinados (Villasán Rueda et al., 2021).
Entre as intervenções psicossociais, a Terapia de Reminiscência (TR) destaca-se pelo seu carácter centrado na pessoa. Ao evocar sistematicamente memórias autobiográficas, promove a continuidade identitária, a regulação emocional e a conexão social, constituindo uma forma intrinsecamente significativa de estimulação cognitiva (Mendes et al., 2022). Revisões sistemáticas demonstram que a TR reduz a sintomatologia depressiva e aumenta a satisfação com a vida em pessoas idosas sem demência, com efeitos particularmente robustos em contexto comunitário (Xu et al., 2023); em pessoas com demência, melhora a comunicação, o humor e o desempenho cognitivo (Saragih et al., 2022).
Apesar da evidência internacional, a maioria dos programas de TR foi concebida para sessões de grupo em lares ou centros de dia (Saragih et al., 2022). A sua adaptação a contextos domiciliários e individuais, mediada por cuidadores informais, permanece limitada e pouco explorada (Xu et al., 2023). Os poucos ensaios individuais existentes, incluindo em Portugal, demonstram exequibilidade e efeitos positivos na cognição, memória e bem-estar (Justo-Henriques et al., 2022), mas revelam heterogeneidade metodológica assinalável e raramente disponibilizam aos cuidadores materiais padronizados ou formação estruturada.
Em Portugal, projetos anteriores desenvolvidos na UICISA: E validaram programas de grupo de reminiscência e de exercício físico, com melhorias significativas em resultados cognitivos e psicossociais. Não existe, porém, qualquer adaptação para entrega individualizada e domiciliária por cuidadores informais, que continuam a reportar necessidades informativas e emocionais não satisfeitas e ausência de instrumentos estruturados (Alves et al., 2020). É esta lacuna que o projeto REMINCARE se propõe colmatar.
O envelhecimento populacional coloca desafios crescentes à autonomia das pessoas idosas e ao suporte prestado pelos cuidadores informais. A fragilidade e o défice cognitivo ligeiro (DCL) representam estados de transição em que a intervenção precoce pode atrasar o declínio funcional. A terapia de reminiscência e o exercício físico estruturado demonstraram benefícios cognitivos, físicos e emocionais, mas os programas existentes foram desenhados para sessões de grupo em contexto institucional, não existindo em Portugal uma versão individual, domiciliária e mediada por cuidadores informais.
O projeto REMINCARE visa cocriar, validar e testar um Programa Individual de Reminiscência e Exercício dirigido a pessoas idosas frágeis com DCL e aos seus cuidadores informais. Adota um desenho híbrido de tipo 2, pré-pós, organizado em quatro fases ao longo de 18 meses: cocriação participativa com 14 contribuidores da comunidade; validação por painel multidisciplinar de peritos através de rondas Delphi; estudo-piloto com, no mínimo, 36 díades recrutadas na ULS de Coimbra, com 24 semanas de intervenção domiciliária; e disseminação.
Avaliam-se prioritariamente a exequibilidade, a adesão e a fidelidade segundo o modelo RE-AIM, e exploratoriamente a cognição, o desempenho físico, a sintomatologia depressiva, a qualidade de vida e a sobrecarga do cuidador.
Objetivo geral:
Cocriar, validar e testar um Programa Individual de Reminiscência e Exercício (REMINCARE) destinado à promoção do bem-estar cognitivo, físico e relacional de pessoas idosas frágeis com défice cognitivo ligeiro e dos seus cuidadores informais, em contexto domiciliário.
Objetivos específicos:
i. Cocriar uma intervenção individual, de aplicação domiciliária, que integre terapia de reminiscência e exercício físico estruturado, através de workshops participativos com pessoas idosas e cuidadores informais;
ii. Desenvolver materiais de intervenção padronizados e acessíveis, incluindo um manual para o cuidador e recursos audiovisuais e digitais;
iii. Validar o programa adaptado mediante consulta a um painel multidisciplinar de peritos, assegurando segurança clínica, exequibilidade e rigor científico;
iv. Conceber e implementar um módulo de formação estruturado para cuidadores informais, que permita a aplicação autónoma e segura da intervenção no domicílio;
v. Realizar um estudo-piloto do programa REMINCARE, avaliando a exequibilidade, a adesão, a satisfação dos participantes e os resultados preliminares em saúde, e identificando facilitadores e barreiras à sua implementação em contexto comunitário;
vi. Disseminar os resultados e os materiais produzidos através de diversos canais científicos e comunitários, promovendo a translação da evidência para a prática futura.
O REMINCARE constitui a primeira iniciativa portuguesa a adaptar programas de reminiscência e exercício físico para aplicação individual e domiciliária por cuidadores informais. A inovação reside na transposição de intervenções validadas em contexto institucional e de grupo para o domicílio, mediada por quem já assegura a continuidade dos cuidados, e na sua cocriação participativa com pessoas idosas e cuidadores, que assumem o papel de coinvestigadores. Gera ainda novos contributos metodológicos sobre desenhos híbridos de exequibilidade e análise de métodos mistos em enfermagem e saúde comunitária, estabelecendo indicadores de referência segundo o modelo RE-AIM.
Para o cidadão, o projeto disponibiliza um manual e um conjunto de materiais multimédia culturalmente adaptados, em formato digital e impresso, que capacitam o cuidador para intervir de forma autónoma e segura. Espera-se a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida de ambos os membros da díade, a redução da sobrecarga e do stress percebido, e o reforço da qualidade da relação entre cuidador e pessoa cuidada.
Para a sociedade, contribui para adiar a institucionalização e sustentar o envelhecimento no domicílio, promovendo equidade no acesso a intervenções não farmacológicas junto de populações vulneráveis. Reforça a articulação entre a ESEUC e a ULS de Coimbra, criando um percurso estruturado de identificação de pessoas idosas frágeis com declínio cognitivo e de envolvimento dos seus cuidadores. O acesso aberto aos materiais e o registo europeu da marca asseguram disseminação ampla e sustentabilidade, em alinhamento com a estratégia ICOPE da Organização Mundial da Saúde.
Gil, I., Costa, P., Parola, V., Cardoso, D., Almeida, M., & Apóstolo, J. (2019). Efficacy of reminiscence in cognition, depressive symptoms and quality of life in institutionalized elderly: a systematic review. Revista da Escola de Enfermagem da U S P, 53, e03458. https://doi.org/10.1590/S1980-220X2018007403458
Gil, I., Santos-Costa, P., Bobrowicz-Campos, E., Silva, R., de Lurdes Almeida, M., & Apóstolo, J. (2022). Effectiveness of Reminiscence Therapy versus Cognitive Stimulation Therapy in Older Adults with Cognitive Decline: A Quasi-Experimental Pilot Study. Nursing reports (Pavia, Italy), 12(2), 339–347. https://doi.org/10.3390/nursrep12020033
Gil, I. M. A., Costa, P. J. S., Bobrowicz-Campos, E. M., Cardoso, D. F. B., Almeida, M. L. F., & Apóstolo, J. L. A. (2017). Terapia de reminiscência: Construção de um programa para pessoas idosas com declínio cognitivo em contexto institucional. Revista de Enfermagem Referência, IV(15), 53–62. https://doi.org/10.12707/RIV17052
30/03/2026
30/09/2027
ENVELHECIMENTO, SAÚDE E CIDADANIA: CIDADANIA E PROMOÇÃO DA AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA DA PESSOA IDOSA E DOS SEUS CUIDADORES
Well-being and Health Promotion