Promoção da Saúde Mental com Estudantes em Enfermagem no Ensino Superior (PSM3ES)

Na atualidade, em contexto de ensino superior, deparamo-nos com estudantes que podem apresentar algum tipo de vulnerabilidade (Meleis et al., 2010), pela transição de desenvolvimento que se encontram a viver como jovens adultos, pela transição situacional em contexto de ensino superior e pelas exigências de âmbito cognitivo, emocional e comportamental que experienciam, na transição para o papel de enfermeiro(a). Neste processo, a possibilidade de vulnerabilidade acrescida durante os ensinos clínicos aumenta, pela grande aproximação á prática profissional, que se apresenta como um campo de aprendizagem excelente e um referencial na assunção do papel profissional de enfermeiro(a), mas pela sua complexidade, dinâmica e imprevisibilidade (Rua, 2011), os estudantes poderão viver dificuldades de regulação emocional, capacidade de adaptação, assim como sintomas depressivos e de ansiedade, que dificultam entre outras dimensões, o desenvolvimento da empatia.

De acordo com Jean Watson a empatia corresponde “à capacidade para experimentar e, por conseguinte, compreender as perspetivas e sentimentos das outras pessoas e transmitir essa compreensão” (1979 citado em Neil, 2004, p.168) assim, entramos no domínio da compreensão empática que requer respostas objetivas, com uma reflexão verbal precisa e específica, sem exagerar ou minimizar o que foi relatado. É desejável que a comunicação verbal e não verbal de quem ajuda e o estado emocional do outro sejam congruentes, que o estudante seja capaz de reconhecer e aceitar as próprias emoções, estar atento, ter a perceção e consciência do que se passa consigo e à sua volta, impedindo que as emoções os dominem.

A identificação emocional consiste em perceber que determinadas reações fisiológicas e determinados pensamentos em determinadas situações dizem respeito a determinadas emoções ou formas de sentir, por isso, reconhecer as emoções será tanto mais fácil quanto mais bem informados estivermos acerca delas, e de como se manifestam no corpo. As emoções revelam a forma como avaliamos o que nos acontece. Aceitar que por vezes temos comportamentos que não gostaríamos de partilhar contribui para o crescimento pessoal e maturidade emocional. Damásio refere que a capacidade de reconstrução e reapresentação das experiências vividas, não se desenvolve apenas por processos reflexivos conscientes, mas igualmente por processos não-conscientes. “A essência do que vivemos é reavaliado e inevitavelmente reagrupado, memorizado com outras representações, modificado ao de leve ou em profundidade, no que respeita à sua composição factual e ao acompanhamento emocional presente. A nossa história pessoal vai sendo reescrita durante todos os anos da nossa vida, podendo os factos adquirir novos significados, sendo esta tarefa em grande medida um processo não-consciente” (Damásio, 2010, p.264).

Em ensino clínico, os estudantes treinam o papel de enfermeiro, em cenário real vivem experiências inaugurais de uma relação terapêutica. No papel de enfermeiro, no papel de terapeuta, face a face com o outro, pessoa cliente de cuidados, o estudante desenvolve pensamentos e comportamentos conscientes deste novo papel, mas experiencia um grande número de emoções, pensamentos e comportamentos não-conscientes, geradores de ambivalência, duvida, incerteza, insegurança e medo. Este encontro entre os processos conscientes e não-conscientes, presente na reconstrução, representação e aquisição de novos significados da experiência vivida, encontra no sociodrama uma ferramenta importante, pelo potencial que oferece ao trabalhar as dimensões não-conscientes em contexto de realidade suplementar, por meio da dramatização.

O psicodrama e sociodrama são em regra os dois métodos de intervenção criados por Jacob Ley Moreno mais conhecidos, embora eles emerjam de um corpo teórico, a socionomia (Moreno, 1993), que possibilita a compreensão dos fenómenos grupais, quer de grupos naturais (casal, família e comunidade), quer de grupos instrumentais (educação, ensino, profissional ou contexto institucional).

Esta compreensão desenvolve-se com recurso a um conjunto de metodologias, que se aplicam no psicodrama e sociodrama (Sociatria), e se propõem resolver ou prevenir dinâmicas desarmónicas ou disfuncionais presente nos grupos. De acordo com Moreno (1993) no psicodrama trabalhamos o individuo (protagonista), o eu privado, com uma intencionalidade de psicoterapia do individuo, logo este não é o método que se aplica a este projeto.

Enquadramento:

Objetivos: Promover a saúde mental e bem-estar dos estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESEnfC, durante o 3º ano, com recurso ao Sociodrama; Desenvolver o papel de estudante de enfermagem e treino de papel de enfermeiro(a).

Metodologia: O PSM3ES é um projeto de investigação longitudinal, com estudo de natureza quasi-experimental e abordagem quantitativa. A amostragem não probabilística de conveniência é constituída por estudantes do 3º ano do CLE em EC de ESMP. Terá um Grupo Controlo (GC) e um Grupo Experimental (GE). O GC será constituído pelos estudantes a realizar EC fora do Polo Sobral Cid que seguem a metodologia prevista neste EC com a participação num Seminário Reflexivo no final do EC. O GE será constituído pelos estudantes a frequentar o EC no Polo Sobral Cid da ULS de Coimbra com intervenção do sociodrama, ao longo do EC, substituindo o Seminário Reflexivo final e com o mesmo tempo de duração deste seminário repartido por várias sessões sociodramáticas.

O instrumento de recolha de dados, sob a forma de questionário é constituído por várias escalas de medida, adaptados aos participantes e serão aplicados antes e após as intervenções e três meses após.

Resultados (esperados): Melhoria das variáveis selecionadas para os participantes.

Conclusão: Intervenções de promoção de saúde mental com recurso ao sociodrama podem ter um impacto positivo nos estudantes do CLE.

Objetivo Geral:

- Promover a saúde mental e bem-estar dos estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESEnfC, durante o 3º ano, com recurso ao Sociodrama.

- Desenvolver o papel de estudante de enfermagem e treino de papel de enfermeiro(a).

Objetivos Específicos:

- Desenvolver o relacionamento interpessoal e o trabalho em grupo nos estudantes.

- Desenvolver a capacidade de empatia.

- Desenvolver estratégias de regulação emocional.

- Aumentar o bem-estar diminuindo sintomas depressivos e de ansiedade.

- Desenvolver a Espontaneidade dos estudantes, nomeadamente a capacidade de adaptação, flexibilidade e ajustamento a novas situações.

- Promover um vínculo positivo à ESEnfC.

- Contribuir para o sucesso escolar.

Este estudo propõe uma abordagem diferenciada aos seminários em ensino clínico, comparando o modelo tradicional com o modelo de sociodrama. A inovação reside na possibilidade do sociodrama, uma técnica psicoterapêutica de grupo, promover uma vivência profunda e transformadora. Esta metodologia permite aos estudantes explorar e dramatizar situações clínicas e interpessoais, desenvolvendo uma compreensão mais rica das dinâmicas humanas e das suas próprias reações emocionais. A distinção fundamental não está no conteúdo do ensino clínico, mas na forma como se desenvolvem as competências socio emocionais. O impacto desta investigação para a sociedade e cidadão é vasto e profundamente relevante. Ao se focar em variáveis como o bem-estar subjetivo, redução de sintomas de ansiedade e depressão, aumento da empatia, melhoria da regulação emocional e incremento da espontaneidade em futuros enfermeiros, o estudo aborda diretamente desafios críticos na saúde mental. Estudantes e Enfermeiros com maior equilíbrio emocional, resiliência e capacidade empática estão intrinsecamente mais aptos a prestar cuidados de saúde humanizados e de elevada qualidade. Para a sociedade em geral, o resultado esperado é a formação de uma geração de profissionais de enfermagem mais competentes, sensíveis e empáticos. Uma melhor regulação emocional por parte dos estudantes e enfermeiros pode conduzir a interações mais construtivas e a uma comunicação mais clara com as pessoas e famílias, contribuindo para um ambiente terapêutico e salutogênico.

Não aplicável

  • Sociedade Portuguesa de Psicodrama
  • Coutinho, J., Ribeiro, E., Ferreirinha, R., & Dias, P. (2010). Versão portuguesa da Escala de Dificuldades de Regulação Emocional e sua relação com sintomas psicopatológicos. Archives of Clinical Psychiatry, 37(4), 145 ˗ 151. https://doi.org/10.1590/S0101-60832010000400001

    Damásio, A. (2010). O Livro da Consciência – A Construção do Cérebro Consciente. (1aed). Editora Temas e Debates.

    Gago, J., Andrade, M., Martins. M., Cunha, O., Soares, S., Santos, T., Macedo, M., Nora, R., Pereira, J., & Martinho, S. (2023). Programa para a Promoção de Saúde Mental no Ensino Superior. https://wwwcdn.dges.gov.pt/sites/default/files/ppsmes_acces_2023-vf.pdf

    Gonzalez, A., Martins, P. J., Lima, M. P., & Rosado, A. (2021). Análise das qualidades psicométricas da versão portuguesa do inventário de avaliação da espontaneidade (SAI-R). Psico-USF, 26 (spe), 83 ˗ 95. https://doi.org/10.1590/1413-8271202126nesp09

    Watson, J. (1999). Enfermagem: Ciência humana e cuidar uma teoria de enfermagem. Loures, Portugal: Lusociência.

    Limpo, T., Alves, R. A., & Catro, S. L. (2010). Medir a empatia: Adaptação portuguesa do Índice de Reactividade Interpessoal. Laboratório de Psicologia, 8(2), 171 ˗ 184. https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/86583/2/86151.pdf

    Meleis, A. I., Sawyer, L.M., Im, E., Messias, D. K. H. & Shumacher, K. (2010). Experiencing transitions: an emerging middle-range theory. In A. Meleis (Ed.). Transitions theory, middle-range and situation- specific theories in nursing research and practice. (pp. 52 ˗ 65). Springer Publishing Company.

    Marineau, R. F. (1993). Jacob levy Moreno, 1889-1974. Pai do psicodrama, da sociometria e da psicoterapia de grupo. Editora Ágora.

    Moreno, J. L. (2013). Psicodrama. Pensamento-Cultrix.

    Rua, M. (2011). De aluno a enfermeiro: Desenvolvimento de competências em contexto de ensino clínico. Lusociência.

    Sales, C. M. D., Moleiro, C. M. M., Evans, C., & Alves, P. C. G. (2012). Versão portuguesa do CORE-OM: tradução, adaptação e estudo preliminar das suas propriedades psicométricas. Archives of Clinical Psychiatry, 39(2), 54­˗59. https://doi.org/10.1590/S0101-60832012000200003

    Informação do projeto

    • Data de Início

      01/09/2025

    • Data de conclusão

      01/12/2026

    • Projeto Estruturante

      PREVENÇÃO DE COMPORTAMENTOS SUICIDÁRIOS

    • Linha Temática

      Well-being and Health Promotion

    • Target population
      • Estudantes do 3º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem da ESEnfC
    • Palavras-chave
      • Saúde Mental
      • Sociodrama
      • Estudantes do Ensino Superior
      • Modelo stepped care
      • Promoção
      • Enfermagem Saúde Mental
    • Áreas prioritárias
      • Educação para a Saúde e Literacia
      • Transições de saúde e autocuidado
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
      • Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas
    • Equipa de Projeto
      • António Jorge Soares Antunes Nabais IR
      • Cândida Rosalinda Exposto da Costa Loureiro
      • José Carlos Pereira dos Santos
      • Rosa Maria Pereira Simões
      • Rosa Cristina Correia Lopes
      • Andreia Sofia Cristina