As organizações internacionais enfatizam a importância de promover a saúde mental através de abordagens preventivas e contextualizadas que vão além dos cuidados clínicos individuais e incluem os ambientes de vida quotidiana (World Health Organization [WHO], 2021, 2022). Neste contexto, torna-se importante criar ambientes em que as pessoas se sintam seguras para participar, expressar ideias e cometer erros sem receio de julgamento ou consequências negativas. Esta perceção é frequentemente designada por segurança psicológica (Edmondson, 1999). Embora originalmente desenvolvido em contextos organizacionais, o conceito é relevante para ambientes educativos, onde o clima interpessoal e a aceitação percebida podem influenciar a participação, o engagement e o stress relacionado com o desempenho, afetando, assim, o bem-estar e a aprendizagem dos estudantes.
A nível individual, as competências emocionais, entendidas como competências relacionadas com a consciência emocional, a regulação e o funcionamento interpessoal (Goleman, 1995), apoiam a adaptação a novos ambientes e a gestão das exigências académicas e sociais entre os estudantes universitários (Parker et al., 2004). Complementarmente, o autocuidado refere-se à capacidade dos indivíduos para promover e manter a saúde na vida quotidiana. A Teoria de Médio Alcance do Autocuidado conceptualiza o autocuidado como um processo dinâmico que envolve comportamentos de manutenção, monitorização e gestão, destacando o papel da tomada de decisão e das respostas adaptativas (Riegel et al., 2012; Riegel et al., 2019). Com base neste enquadramento, Luciani et al. (2022) desenvolveram o Self-Care Inventory, destinado à avaliação dos comportamentos de autocuidado na população adulta, independentemente da presença de doença crónica, permitindo a aplicação deste referencial a contextos de promoção da saúde e do bem-estar.Apesar da relevância destes domínios, importa aprofundar a sua análise de forma integrada no contexto do ensino superior. Neste sentido, abordagens preventivas e participativas que envolvam estudantes e docentes podem contribuir para identificar necessidades, prioridades e estratégias ajustadas ao contexto académico. As metodologias de cocriação constituem, assim, uma abordagem pertinente para apoiar o desenvolvimento de intervenções contextualmente adequadas
As instituições de ensino superior (IES) desempenham um papel importante na promoção de ambientes psicologicamente seguros e no desenvolvimento de competências emocionais e práticas de autocuidado, contribuindo para o bem-estar dos estudantes. Este estudo visa desenvolver e avaliar uma intervenção de promoção da saúde mental no ensino superior, centrada na segurança psicológica, nas competências emocionais e no autocuidado, junto de estudantes da Universidade Politécnica de Viseu (UPV). Será realizado um diagnóstico através de um questionário aplicado a aproximadamente 500 a 700 estudantes das diferentes escolas da UPV, complementado por metodologias participativas, incluindo grupos focais e sessões de World Café com estudantes e docentes. Os resultados poderão contribuir para o desenvolvimento de intervenções preventivas e colaborativas de promoção da saúde mental nas IES.
O objetivo geral do estudo proposto é desenvolver e avaliar uma intervenção de promoção da saúde mental no ensino superior, centrada na segurança psicológica, nas competências emocionais e nas práticas de autocuidado, ajustada às necessidades dos estudantes.
Para atingir este objetivo, foram definidos os seguintes objetivos específicos::
Caracterizar a segurança psicológica, as competências emocionais e as práticas de autocuidado entre os estudantes do ensino superior da UPV, através de uma avaliação diagnóstica;
Examinar as associações entre a segurança psicológica, as competências emocionais e as práticas de autocuidado entre os estudantes da UPV;
Identificar fatores associados à segurança psicológica, às competências emocionais e aos comportamentos de autocuidado entre estudantes da UPV;
Explorar as perceções, necessidades e prioridades dos estudantes e docentes relativamente à segurança psicológica e ao bem-estar, através de metodologias participativas;
Desenvolver, de forma cocriada, estratégias de intervenção destinadas a promover a segurança psicológica, as competências emocionais e os comportamentos de autocuidado nos estudantes da UPV;
Avaliar a adequação, utilidade e aplicabilidade percebidas das estratégias desenvolvidas e implementadas, a partir do feedback dos estudantes participantes.
Espera-se que o estudo contribua para a promoção preventiva da saúde mental dos estudantes do ensino superior, através de abordagens dinâmicas, colaborativas e participativas de apoio ao bem-estar no contexto académico. Os estudantes terão um papel ativo ao longo do projeto, participando na identificação de necessidades e prioridades, na cocriação das estratégias de intervenção e na avaliação da sua adequação, utilidade e aplicabilidade. Este envolvimento permitirá integrar diretamente a perspetiva dos estudantes no desenvolvimento das respostas propostas e aumentar a sua exequibilidade e aceitação.
A promoção da segurança psicológica poderá favorecer a expressão de preocupações e dificuldades, facilitar a adaptação ao contexto académico e apoiar o bem-estar. O reforço das competências emocionais, do autocuidado e do apoio entre pares poderá também contribuir para o reconhecimento precoce de situações de sofrimento e para percursos de procura de ajuda mais adequados. O projeto pretende ainda apoiar práticas preventivas centradas nos estudantes e produzir evidência útil para a promoção do bem-estar e da saúde mental no ensino superior.
Bardin, L. (2016). Análise de conteúdo. Edições 70.
Edmondson, A. C. (1999). Psychological safety and learning behavior in work teams. Administrative Science Quarterly, 44(2), 350–383. https://doi.org/10.2307/2666999
Goleman, D. (1995). Emotional intelligence. Bantam Books.
Parker, J. D. A., Summerfeldt, L. J., Hogan, M. J., & Majeski, S. A. (2004). Emotional intelligence and academic success: Examining the transition from high school to university. Personality and Individual Differences, 36(1), 163–172. https://doi.org/10.1016/S0191-8869(03)00076-X
Riegel, B., Jaarsma, T., & Strömberg, A. (2012). A middle-range theory of self-care of chronic illness. Advances in Nursing Science, 35(3), 194–204. https://doi.org/10.1097/ANS.0b013e318261b1ba
Riegel, B., Jaarsma, T., Lee, C. S., & Strömberg, A. (2019). Integrating symptoms into the middle-range theory of self-care of chronic illness. Advances in Nursing Science, 42(3), 206–215. https://doi.org/10.1097/ANS.0000000000000237
World Health Organization. (2021). Guidance on community mental health services: Promoting person-centred and rights-based approaches. https://www.who.int/publications/i/item/9789240025707
World Health Organization. (2022). World mental health report: Transforming mental health for all. https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338
01/09/2026
01/09/2029
EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE EM CONTEXTO ESCOLAR E COMUNIDADES
Well-being and Health Promotion