Rumo a Estruturas Residenciais afirmativas para adultos mais velhos LGBTQIA+ : perspetivas de residentes e de staff de ERPI

Nas últimas décadas, adultos mais velhos LGBTQIA+ têm-se tornado progressivamente mais visíveis, fruto de significativas mudanças culturais e legais (Fasullo et al., 2022; Perone et al, 2020). Estas alterações não se traduzem automaticamente em inclusão plena, incluindo nos contextos de cuidados de longa duração. Apesar dos avanços legais em Portugal existem ainda lacunas significativas na investigação e nos serviços direcionados aos adultos mais velhos LGBTQIA+, particularmente em contextos institucionais, como Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI). A literatura sobre pessoas autoidentificadas como LGBTQIA+ tem-se centrado em adolescentes e jovens adultos (Tavares et al., 2023), sendo escassa a focada em fases avançadas do ciclo de vida. Os estudos existentes sobre adultos LGBTQIA+ entre a meia-idade e a velhice tendem a incidir sobre estigma, perturbações mentais e sofrimento psicológico (Carvalho, 2024; Henry, 2021; Ribeiro-Gonçalves, 2022). De facto, os adultos mais velhos LGBTQIA+ envelhecem num contexto de desvantagens prolongadas. A teoria da desvantagem acumulada (cumulative disadvantage) ajuda a compreender como os fatores de risco se somam e intensificam ao longo da vida, conduzindo a trajetórias de envelhecimento mais vulneráveis e a manifestação precoce de fragilidade (Ferraro & Kelley-Moore, 2003). Nestas circunstâncias, os adultos mais velhos LGBTQIA+ podem necessitar de cuidados de longa duração mais cedo e de forma mais acentuada dado que tendem a não dispor de redes de apoio familiar tradicionais (muitos são solteiros, sem filhos e, frequentemente, afastados das famílias biológicas). Embora possam contar com famílias “escolhidas” (families by choice), estas tendem a enfraquecer com o envelhecimento, visto que pertencem à mesma geração (Buczak-Stecc, 2023; National Senior Citizens Law Center, 2011). O paradigma do envelhecimento saudável (World Health Organization, 2020) sublinha que ninguém deve ser deixado para trás, identificando o desenvolvimento de sistemas de cuidados de longa duração como área prioritária. Garantir cuidados adequados e inclusivos que afirmem a identidade dos adultos mais velhos LGBTQIA+ e respondam às suas necessidades específicas é uma prioridade. No entanto, a investigação sugere que estas pessoas tendem a adiar a procura por cuidados de longa duração por receio de estigma e discriminação (Casado et al., 2022). Dentro das instituições de cuidados de longa duração, os adultos mais velhos LGBTQIA+ enfrentam frequentemente situações de assédio e discriminação, incluindo a recusa de cuidados, utilização incorreta de pronomes e a desconsideração da sua identidade (LGBT Movement Advancement Project & Sage, 2010). A interseccionalidade revela como essas experiências de discriminação são amplificadas quando se cruzam com outras identidades, como a idade, raça ou condição socioeconómica. Apesar dos esforços de alguns profissionais para desenvolver cuidados de qualidade, persistem barreiras como a falta de formação, preconceitos inconscientes e o idadismo, que dificultam a perceção e a resposta adequada às questões de género e sexualidade, especialmente quando se sobrepõem a outras dimensões identitárias (Casanova-Perez, 2022). Os cuidados afirmativos (affirmative care) surgiram como uma mudança de paradigma que reconhece diversas identidades sexuais e de género como aspetos inerentes à diversidade humana, em vez de patologias que exigem ‘correções’ (Mendonza et al., 2020). Esta abordagem oferece um quadro que promove a autoestima e a resiliência, ao mesmo tempo que aborda os efeitos prejudiciais da discriminação nas pessoas LGBTQIA+ (Alessi, 2013; O'Shaughnessy and Speir, 2018). Este projeto foca-se nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), que fornecem a maior parte dos cuidados de longa duração a adultos mais velhos em Portugal. Em geral, a literatura aponta práticas frequentemente inadequadas relativamente aos adultos mais velhos LGBTQIA+. Apesar de existir cada vez mais investigação sobre riscos e barreiras enfrentados por esta população em contextos institucionais, subsiste escassez de orientações práticas e baseadas em evidência que apoiem e orientem as equipas na prestação de cuidados afirmativos e inclusivos.

Este projeto analisa as perspetivas de residentes e staff de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) sobre cuidados afirmativos dirigidos a adultos mais velhos LGBTQIA+. Apesar dos avanços em direitos e igualdade, persistem lacunas na investigação e na prestação de cuidados de longa duração culturalmente sensíveis para esta população em contexto institucional. Muitos adultos mais velhos LGBTQIA+ enfrentam desafios decorrentes de trajetórias marcadas por estigma, discriminação e redes de apoio fragilizadas, aumentando a vulnerabilidade no envelhecimento e no acesso a cuidados.O projeto integra dois estudos quantitativos, transversais, descritivos e correlacionais, que analisam a perceção de preparação, atitudes, conhecimento e recetividade face aos cuidados afirmativos, bem como a sua associação com variáveis sociodemográficas, de contacto prévio e, no caso do staff, também profissionais e formativas.A recolha de dados será feita por questionários presenciais a residentes e online ao staff, analisados com estatística descritiva e inferencial.Espera-se que os resultados identifiquem práticas, barreiras e necessidades formativas, permitindo desenvolver recomendações baseadas em evidência para promover ambientes institucionais mais inclusivos nas ERPI, reforçando a qualidade dos cuidados e a dignidade das pessoas LGBTQIA+ no envelhecimento.

Objetivo geral:Analisar as perspetivas de residentes e de staff de ERPI relativamente aos cuidados afirmativos para adultos mais velhos LGBTQIA+, nomeadamente quanto à perceção de preparação, atitudes, conhecimento e recetividade, bem como a sua associação com características sociodemográficas, profissionais e formativas.Objetivos específicos:i) Analisar a perceção de preparação, as atitudes, o conhecimento e a recetividade dos residentes de ERPI relativamente a cuidados afirmativos para adultos mais velhos LGBTQIA+.ii) Analisar a perceção de preparação, as atitudes, o conhecimento e a recetividade do staff de ERPI relativamente a cuidados afirmativos para adultos mais velhos LGBTQIA+.iii) Analisar as associações entre a perceção de preparação, as atitudes, o conhecimento e a recetividade dos residentes de ERPI e variáveis sociodemográficas (e.g., idade, sexo, habilitações académicas, religião), bem como variáveis relativas ao contacto prévio com pessoas LGBTQIA+ (conhecimento prévio do tema e contacto próximo ao longo da vida).iv) Analisar a relação entre a perceção de preparação, as atitudes, o conhecimento e a recetividade do staff e variáveis sociodemográficas (e.g., idade, sexo, habilitações académicas, religião), profissionais (e.g., função profissional, anos de experiência), formativas (e.g., formação prévia em diversidade de orientação sexual e de género) e experienciais (contacto pessoal e profissional prévio com pessoas LGBTQIA+).

As evidências resultantes desta investigação poderão contribuir para a melhoria das práticas e estratégias de cuidado nas ERPI, favorecendo o bem-estar e a inclusão de todas as pessoas. Ao identificar as perspetivas dos residentes e do staff sobre práticas afirmativas, o estudo poderá apoiar o desenvolvimento de políticas e ações que promovam uma cultura organizacional mais equitativa e centrada na pessoa. Ao envolverem-se neste estudo, os participantes tornam-se parte ativa de um processo de transformação social, ajudando a criar condições mais justas e acolhedoras para as gerações futuras de adultos mais velhos LGBTQIA+.

  • Associações LGBTQIA+
  • Alessi, E. J. (2013). Acknowledging the impact of social forces on sexual minority clients: Introduction to the special issue on clinical practice with LGBTQ populations. Clinical Social Work Journal, 41, 223–227. https://doi.org/10.1007/s10615-013-0453-0

    Bower, K. L., Lewis, D. C., Bermúdez, J. M., & Singh, A. A. (2021). Narratives of generativity and resilience among LGBT older adults: Leaving positive legacies despite social stigma and collective trauma. Journal of Homosexuality, 68(2), 230–251. https://doi.org/10.1080/00918369.2019.16480825

    Buczak-Stec, E., König, H., Feddern, L., & Hajek, A. (2023). Long-term care preferences and sexual orientation: A systematic review and meta-analysis. JAMDA, 24, 331–342. https://doi.org/10.1016/j.jamda.2022.11.020

    Carvalho, R., Tavares, J., Casado, T., Sousa, L., & Guerra, S. (2024). “There’s still time to be happy”: The life trajectories of Portuguese transgender women who transitioned at 50+ years. Global Qualitative Nursing Research. https://doi.org/10.1177/23333936241236292

    Casado, T., Tavares, J., Guerra, S., & Sousa, L. (2022). Leaving a mark and passing the torch: Intended legacies of older lesbian and gay Spanish activists. Journal of Homosexuality. https://doi.org/10.1080/00918369.2022.2048165

    Casanova-Perez, R., Apodaca, C., Bascom, E., Mohanraj, D., Lane, C., Vidyarthi, D., Beneteau, E., Sabin, J., Pratt, W., Weibel, N., & Hartzler, A. L. (2022). Broken down by bias: Healthcare biases experienced by BIPOC and LGBTQ+ patients. AMIA Annual Symposium Proceedings, 2021, 275–284. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35308990/

    Delve, H., L., & Limpaecher, A. (2023). Abductive Coding in Qualitative Analysis. https://delvetool.com/blog/abductive-coding

    Fasullo K, McIntosh E, Buchholz SW, Ruppar T, Ailey S. LGBTQ Older Adults in Long-Term Care Settings: An Integrative Review to Inform Best Practices. Clin. Gerontol. 2022; 45(5): 1087-1102. doi: 10.1080/07317115.2021.1947428

    Ferraro, K. F., & Kelley-Moore, J. (2003). Cumulative Disadvantage and Health: Long Term Consequences of Obesity? American Sociological Review, 68, 707-729.
    http://dx.doi.org/10.2307/1519759

    Guest, G., MacQueen, K. M., & Namey, E. (2012). Applied thematic analysis. In Sage (Ed.). Heller, T. (2010). People with Intellectual and Developmental Disabilities Growing Old: An Overview

    Henry, R. S., Perrin, P. B., Coston, B. M., & Calton, J. M. (2021). Intimate partner violence and mental health among transgender/gender nonconforming adults. Journal of Interpersonal Violence, 36(7-8), 2274-3399. https://doi.org/10.1177/0886260518775148

    LGBT Movement Advancement Project & SAGE. (2010). Improving the lives of LGBT older adults. https://www.lgbtmap.org/file/improving-the-lives-of-lgbt-older-adults.pdf

    Mendoza, N. S., Moreno, F. A., Hishaw, G. A., Gaw, A. C., Fortuna, L. R., Skubel, A., Porche, M. V., Roessel, M. H., Shore, J., & Gallegos, A. (2020). Affirmative Care Across Cultures: Broadening Application. Focus (American Psychiatric Publishing), 18(1), 31–39. https://doi.org/10.1176/appi.focus.20190030

    National Senior Citizens Law Center. (2011). LGBT older adults in long-term care facilities: Stories from the field. https://www.lgbtagingcenter.org/resources/pdfs/NSCLC_LGBT_report.pdf

    O'Shaughnessy, T. and Speir, Z. (2018) “The state of LGBQ affirmative therapy clinical research: A mixed-methods systematic synthesis”. Psychology of Sexual Orientation and Gender Diversity, Vol. 5 No.1, pp.82–98.

    Perone, A. K., Ingersoll-Dayton, B., & Watkins-Dukhie, K. (2020). Social isolation and loneliness among LGBT older adults: Lessons learned from a pilot friendly caller program. Clinical Social Work Journal, 48, 126–139. https://doi.org/10.1007/s10615-019-00738-8

    Ribeiro-Gonçalves, J. A., Pereira, H., Costa, P. A., Leal, I., & de Vries, B. (2022). Loneliness, social support, and adjustment to aging in older Portuguese gay men. Sexuality Research and Social Policy, 19(1), 207–219. https://doi.org/10.1007/s13178-021-00535-4

    Roe, L., & Galvin, M. (2021). Providing inclusive, person-centred care for LGBT+ older adults: A discussion on health and social care design and delivery. Journal of Nursing Management, 29(1), 104–108. https://doi.org/10.1111/jonm.13178

    Santana, M. J., Manalili, K., Jolley, R. J., Zelinsky, S., Quan, H., & Lu, M. (2018). How to practice person-centred care: A conceptual framework. Health Expectations, 21(2), 429–440. https://doi.org/10.1111/hex.12640

    Saldaña, J. (2015). The coding manual for qualitative researchers. In SAGE (Ed.), (3rd ed ed.).


    Informação do projeto

    • Data de Início

      01/09/2025

    • Data de conclusão

      30/01/2027

    • Projeto Estruturante

      ENVELHECIMENTO, SAÚDE E CIDADANIA: CIDADANIA E PROMOÇÃO DA AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA DA PESSOA IDOSA E DOS SEUS CUIDADORES

    • Linha Temática

      Well-being and Health Promotion

    • Target population
      • Estudo 1: • População: Pessoas que residem em ERPI (Portugal). • Amostra: Prevê-se uma amostra estim
    • Palavras-chave
      • envelhecimento
      • Cuidados afirmativos
      • Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas
      • Diversidade sexual e de género
    • Áreas prioritárias
      • Envelhecimento ativo
      • Metodologias de cuidados de enfermagem diferenciados (complexos)
    • ODS da Agenda 2030 das Nações Unida
      • Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades
      • Reduzir as desigualdades no interior dos países e entre países
      • Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas a todos os níveis
    • Equipa de Projeto
      • João Paulo de Almeida Tavares IR
      • Liliana Xavier Marques de Sousa OR
      • Sara Guerra OR
      • Rita Carvalho